<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736</id><updated>2012-02-16T00:50:57.306-08:00</updated><category term='Gabriel M. de Moura'/><category term='Miguel Silveira'/><category term='Minicontos'/><category term='Léo Ferlauto'/><category term='Luiz Fernando Farina Keller'/><category term='Luiz Eduardo Amaro'/><category term='Crônicas'/><category term='Gabriela Vargas'/><category term='Felipe Longhi Malheiro'/><category term='Simone Becker'/><category term='Vicente Saldanha'/><category term='Adriana Duarte'/><category term='Michele Cardoso'/><category term='Nei Rafael Filho'/><category term='Gilson Morais'/><category term='Mário Lúcio'/><category term='Volnei Zerbielli'/><category term='Sara Cadore'/><category term='Hélade Lorenzoni'/><category term='Nicole Carina Siebel'/><category term='K.&apos;.I.&apos;.N.&apos;.G.&apos;.'/><category term='Luis Henrique Reis Volkart'/><category term='Giselle dos Santos Steinstrasser'/><category term='Lauren Davi'/><category term='Marli de Oliveira'/><category term='Contos'/><category term='Evelena Boening'/><category term='Maurem Kayna'/><category term='Resenhas'/><category term='Sandra de Almeida Silva'/><category term='Poesias'/><category term='Vera Veríssimo'/><category term='Margot Villas'/><category term='Regina Blacher'/><category term='Luís Eduardo Tebaldi Gomes'/><category term='Lilia Feres'/><category term='Vitória Leiria'/><category term='Mardilê Fabre'/><title type='text'>Oficina de Criação Literária Uniritter</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>58</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-3503224334059673793</id><published>2012-01-20T05:42:00.000-08:00</published><updated>2012-01-20T05:43:05.038-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Simone Becker'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Lua Minguante</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;Simone Becker &lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;De olhos vermelhos e inchados, Carina observava a lua minguante e opaca que,  mesmo assim,  permanecia alta , tão dona de si naquele negro céu. Já deveria haver uma estrela a mais acompanhando a sua majestade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ar condicionado estava estragado, as economias de Erick haviam sido gastas algumas hora antes, ainda sobrara duas prestações para pagar.  Uma freada brusca a fez contorcer o ventre latejante, Carina baixou o vidro para respirar, o gelado do sereno a arrepiou rasgando mais fundo a sua dor. Fechou, deixando só uma frestinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabia se doía mais a alma ou a carne. Apertou com força a mão de Érick, ele ainda estava ao seu lado. Ela não olhava para o seu rosto, sentia uma culpa imensa sobre os ombros. Observava os prédios passando, uma ou outra luz acesa nos apartamentos. O que será que acontecia àquela hora? Bebês a chorar? Casaizinhos adolescentes namorando? Meninos desobedientes na internet? A rua, praticamente deserta, uns mendigos eufóricos, outros adormecidos na pedra como se fosse um berço macio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amor, você fica comigo hoje?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não dá, preciso descansar, o trabalho vai ser puxado. A sua mãe pode cuidar de você.  Me liga, mas só se precisar muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não questionou, uma nuvem de vergonha tomou a sua mente e duas lágrimas restantes deslizaram ardendo em sua face.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz estacionou a acompanhou até o elevador, mas não tinha tempo para subir. A moça entrou silenciosamente, pegou, na farmacinha, um comprimido para a dor, outro para dormir. Afastou a cortina, mais uma vez, observou as estrelas. Deitou e apagou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao amanhecer, seu amor não telefonou, devia estar muito chateado pela grana que teve que gastar. Carina resolveu esperar uns dias para falar com ele. Enfim, ligou o telefone residencial só chamava, o celular caía na caixa de mensagens. Foi até a sua casa para demonstrar arrependimento e implorar o seu carinho.   A vizinha a informou de que a casa estava vazia, por alugar.  Não sabia mais chorar, calou-se e seguiu cabisbaixa para casa de sua mãe, sem a mão de seu amor e nem a da estrelinha, distante, no céu. Maldita a hora em que amou. Maldita a hora em que apenas fingira engolir a pílula do dia seguinte.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-3503224334059673793?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/3503224334059673793/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2012/01/lua-minguante.html#comment-form' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/3503224334059673793'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/3503224334059673793'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2012/01/lua-minguante.html' title='Lua Minguante'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-2258299216346287640</id><published>2012-01-20T05:41:00.000-08:00</published><updated>2012-01-20T05:42:09.362-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Simone Becker'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Só mais um prédio cinzento</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;Simone Becker&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt; Maurício vivia em um prédio cinzento próximo aos trilhos do trem.  Podia sentir o movimentar dos vagões, o imóvel tremia a sua passagem. Gostaria de morar em outro lugar, mas o seu trabalho de garçom não dava para isso.  Aquele prédio até combinava com a cor indefinida, acinzentada, dos seus olhos.Talvez tivesse nascido destinado a viver  ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A semana estava conturbada, Maurício iria receber uma grana a mais para cobrir o horário noturno de um colega, no entanto o stress e o cansaço se tornaram seus companheiros inevitáveis. Pegava o trem até o trabalho. Estava sempre lotado, geralmente ia em pé.   Naquele dia, acordara atrasado, olhou as horas, não dava tempo de comer nada. Saiu correndo, pegou o trem, ficou espremido, mais uma vez, entre os demais passageiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a viagem refletia sobre o contraste de sua vida miserável com a dos clientes que servia no restaurante. Fazia mais de um ano que não comprava sapatos novos, o seu relógio de pulso precisava de pilhas, mas não encontrava um minuto livre para ir comprá-las. Sua vida não tinha nada além de trabalho. Talvez uma namorada a deixasse mais interessante, contudo estava sem tempo e nem dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já era noite, no trabalho, corria feito um louco quando, de repente, parou por não conseguir desviar o olhar de uma linda dama que entrava no restaurante. Ela trajava um vestido negro, delicado e sensual que delineava sua cintura.  Tinha os cabelos presos em um penteado que exibia a sua nuca nua e macia, provavelmente perfumada com uma essência enlouquecedora que ele não conseguia sentir daquela distancia. A atração foi tão intensa que ele imediatamente a seguiu até a mesa, passando na frente do colega que deveria atendê-la. Serviu a inebriado com o seu perfume, que agora, próximo a ela, podia sentir, era melhor do que havia imaginado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando para a copa, aos poucos foi despertando daquela grande emoção. Colocou os pés no chão firme. Aquela bela dama não era para homens como ele, sem dinheiro, sem cultura. Relembrava que não tinha tempo sequer para trocar as pilhas do relógio, quem dirá para cuidar de uma rainha como aquela. Seus olhos ficaram aguados, mas era homem e estava trabalhando, deixaria para pensar sozinho, antes de dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Depois do jantar, a mulher lhe fez um sinal, Maurício a atendeu prontamente, ela queria apenas pagar a conta. Ele se demorou para trazer a nota do caixa, fazia isso, para poder tê-la sob seus olhos, só  por mais alguns instantes,  não devia, mas não sabia parar. A dama pagou, deixou uma boa gorjeta, deveria ser rica, ele se odiou por ter tido aqueles pensamentos, era hora de se colocar no seu lugar de garçom. Baixou os ombros e recolheu os talheres. Percebeu, embaixo do prato, um telefone celular. Lugar estranho para guardar o aparelho. Já ia correndo entregar o telefone à mulher quando encontrou, junto dele, um bilhete com um número e o dizer: Adorei seus olhos, ligue, por favor. Ass: Ana k.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-2258299216346287640?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/2258299216346287640/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2012/01/so-mais-um-predio-cinzento.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2258299216346287640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2258299216346287640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2012/01/so-mais-um-predio-cinzento.html' title='Só mais um prédio cinzento'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-5554704896505147920</id><published>2012-01-17T14:21:00.000-08:00</published><updated>2012-01-17T14:23:25.662-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gabriel M. de Moura'/><title type='text'>O cego e o povo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Gabriel M. de Moura&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt; O povo atravessa o semáforo. O cego, não. Ele aguarda alguns segundos a mais, pois sabe que há motoristas que costumam furar o sinal vermelho. Ele tem paciência; o povo, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O cego anda cauteloso, com sua vareta simplória tateando o solo. Devagar, vence o caminho da Rua da Praia até o Mercado Público. Ouve os vendedores ambulantes, os pedintes, os pássaros da Praça da Alfândega, as peças do jogo de damas percorrendo o tabuleiro de pedra. Se não fosse cego, ficaria horas a fio sentado em algum banco apenas a observar o movimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Quando ele sente o cheiro de peixe, sabe que a Prefeitura está próxima. O centro de Porto Alegre tem muitos cheiros, e caminhando devagar se consegue distinguir cada um deles. Porém, as pessoas estão sempre muito apressadas, ou então imersas em pensamentos, atordoadas, desatentas à vida que passa. Já ele, afinado com o presente, não perde nem um segundo de existência. Dá importância apenas àquilo que é essencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Propagandas. Vitrines. Ofertas. Homens e mulheres perdem segundos preciosos do dia com projetos, sonhos e promessas. Comprar uma geladeira nova, ganhar na loteria, consultar o futuro com a cigana. Será que eles não enxergam que tudo isso não passa de ilusão? Será que é necessário perder tudo de vista para entender a finalidade da vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ser feliz é algo reservado a poucos. Ele, o cego, se considera um cidadão feliz. E, justo quando decide parar sua marcha e anunciar a todos ao redor uma verdade universal por poucos compreendida, uma bicicleta cruza seu caminho. A bengala prende no raio de metal – a roda arremessa a bengala no meio da rua. O cego perde seus olhos, ninguém o acode.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ele senta no meio-fio. Estica a perna e procura a velha companheira, tateando o asfalto com a sola do sapato, cuidadoso para não ser atingido pelos carros. Ouve um estalo metálico - uma lotação atropela seu já disforme instrumento. Sente medo, depois raiva e por fim revolta. Ninguém olha por onde anda. Ninguém consegue ver o outro. Estão todos muito ocupados pra pensar. Assim, ele senta, encostado na parede de um prédio. Chora, com as mãos no rosto, sozinho na escuridão, e ouve moedas caírem a sua frente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-5554704896505147920?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/5554704896505147920/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2012/01/o-cego-e-o-povo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5554704896505147920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5554704896505147920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2012/01/o-cego-e-o-povo.html' title='O cego e o povo'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-3336730559671762483</id><published>2011-11-25T07:26:00.000-08:00</published><updated>2011-11-25T07:30:35.748-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Felipe Longhi Malheiro'/><title type='text'>Ao leitor</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Felipe Longhi Malheiro&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Sensata providência da mãe natureza oportunizar-me um regresso, se é que apercebeu-se dele. Trapaceei para voltar, confesso. Decisivas as indicações do hipopótamo, o do delírio. Volto com a mesma idade e curado, esse o segundo segredo que aprendi no mais-que-sesquicentenário descanso, de uma sexta-feira de agosto de 1869 ao estupefaciente novembro de 2011.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surpreende, inobstante, a quantidade de emplasto de que necessitarei para empreender a cura final, propósito único de meu retorno. Cresceu a humanidade e a hipocondria ramificou além da conta. Isso já me bastaram alguns dias para ver. Acerquei-me de mendigos e tenho vivido nos albergues que a eles se destinam, se é que interessa ao distinto leitor o que tenho comido, na primeira semana em que vivo novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imaculado, saí da primeira existência. A própria morte, ocorre-me agora, teve-me efeito equivalente ao do emplasto. Não desejo, todavia, a extinção do ser como solução a seus males. Minha segunda chance de salvação é inaugurada em pristinas condições. Sem família, desprovido de laços que não tencione possuir, isento da culpa das chagas do presente. Família, ideia que me mói o cérebro a cada vez que o percorre, da qual, felizmente, passei ao largo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procuro adaptar-me, perplexo com o novo mundo, mas não tanto assim. Entre passeios e conhecimentos inúmeros, chega o momento em que pesquiso na Biblioteca Pública por meu apelido, a ver o que se houve dos meus parentes dos 1870 em diante. Recém-voltado que sou do além, avanço que poucos ou nenhum deste tempo hauriram, pouca coisa é que não vai me paralisar de susto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aguardo a resposta do jovem funcionário, enquanto celebro interiormente a nova chance de viver e fruir o pleno amor da glória, o primeiro lugar entre os homens – desta feita, curando de fato a hipocondria. O arrepio da felicidade presente, a que não deve ser sentida, já prenuncia algo, contudo. Os olhos brilhantes do encarregado informam. E a suspeita que não revelei na última frase do último capítulo de meu livro, travestindo-a, ao contrário, de certeza cheia de pompa e glória, confirma-se. Pobre linda Marcela, por que houve de ocultar-me isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Capítulo Único&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Encontrei este exemplar aqui, senhor:”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;CUBAS NETO&lt;/span&gt;, Marcelo. “O legado da nossa miséria” - Rio de Janeiro – RJ: 1943.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-3336730559671762483?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/3336730559671762483/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/ao-leitor.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/3336730559671762483'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/3336730559671762483'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/ao-leitor.html' title='Ao leitor'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-710004473663233207</id><published>2011-11-21T05:29:00.000-08:00</published><updated>2011-11-21T05:30:17.103-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gilson Morais'/><title type='text'>Zumbido</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Gilson Morais&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Olhava fixamente para o relógio de pulso. Havia uma mosca lá dentro. Ela estava parada sobre o número onze. Bateu com o dedo no vidro, mas o inseto o ignorava. Tirou o relógio e o meteu no bolso. No ônibus lotado alguém podia ver aquela coisa asquerosa. O que iam pensar dele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Olhou para os lados já no escritório, e retirou o objeto do bolso. A intrusa estava agora sobre o doze, mas o onze havia sumido. Essa desgraçada comeu o onze, pensou, e com certeza agora vai continuar com o estrago. E ficou cutucando o relógio, exasperado, tentando imaginar como aquele bicho tinha entrado ali. Tentou abri-lo, mas, fosse por falta de habilidade ou nervosismo, não conseguiu. Escolheu uma gaveta e jogou-o lá dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Aquilo ficou martelando na sua cabeça toda a manhã. Não conseguiu trabalhar direito: rendeu pouco e o pouco que fez não prestou. Perto das onze horas resolveu encarar sua inimiga, mas quando abriu a gaveta uma nuvem de moscas se libertou e zuniu pela sala. Teve a impressão que uma entrara em sua boca e ele ficou tossindo, cuspindo, engasgado.  Assim como apareceram, os bichos sumiram. No relógio o doze sumira e a faminta agora devorava o seis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Era melhor ir almoçar, mesmo com o estômago dado um nó, mesmo que não conseguisse comer. Ao menos arejar a cabeça. Mas das dez horas, seu relógio corria direto para uma da tarde, quando deveria estar de volta. Não podia sair. A mosca comera seu horário de almoço. Podia sentir o zumbido de escárnio vindo daquela miserável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Arremessou o relógio na parede, pisou em cima, bateu com um grampeador. A única alteração foi o sumiço do seis e o inseto digerindo o sete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Jogou-o de volta ao fundo de uma gaveta que fechou à chave. Atormentado, passou horas com a cabeça entre as mãos, como se tentasse conter sua sanidade. Era melhor esquecer aquele dia, ir para casa e amanhã tudo voltaria ao normal. Estava trabalhando muito, devia ser um estresse. Isso. Era estresse. Talvez fosse a hora de tirar aquelas férias já adiadas havia cinco anos. Há tempos não suportava o chefe. Ia visitar família, rever amigos, cuidar da saúde. Estava se sentindo mesmo muito magro e sem disposição. Ia ligar pra Fátima, ver se marcava um cinema. Será que ela toparia? Há meses não dava notícias. Estava resolvido. Tomaria um novo rumo. Um bom banho, uma noite de sono e vida nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Juntou suas coisas, mas na parede o relógio corria das cinco direto para as oito horas. O seis e o sete também haviam sumido. Pela janela o sol não se punha, estava nascendo novamente. Ouviu um zumzumzum dentro dos miolos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Estava preso. A hora de sair nunca iria chegar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-710004473663233207?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/710004473663233207/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/zumbido.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/710004473663233207'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/710004473663233207'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/zumbido.html' title='Zumbido'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-7786079564982046467</id><published>2011-11-21T03:30:00.001-08:00</published><updated>2011-11-21T03:31:04.471-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Maurem Kayna'/><title type='text'>Andanças</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Maurem Kayna&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Demorou a aprender o português de modo a não provocar perguntas sobre sua nacionalidade toda vez que pedisse uma informação ou o almoço no vegetariano do centro. Mas, tão pronto logrou reproduzir a fala dos locais, arrependeu-se da sutil intervenção cirúrgica que lhe deu tranqüilidade no início. Hoje, pensa que poderia ter sido aceito no cotidiano da cidade sem despertar qualquer suspeita apenas mudando o cabelo e as roupas, talvez o óculos, que era sua marca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O medo de que o descobrissem era, na verdade, pura paranóia. A encenação da sua morte foi muito convincente até para os mais próximos e o tal Chapman segue na prisão. Tinha um pouco de remorso pela acusação injusta, mas tranqüilizava-se porque de outra forma o fã não teria punição alguma para outros atos hediondos já cometidos. Mark, tão perturbado, talvez até se sentisse agradecido pela chance de poder fazer tamanho favor ao objeto de suas obsessões.  Não falou disso quando iniciou as confissões, mas não se negou a contribuir quando a ideia lhe foi apresentada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora já não faz diferença. O passado ficou bem enterrado, está assegurada a fama eterna para o nome de antes e agora tem a rotina sem peso de tocar violão na noite curitibana, entremeando as canções recém criadas com os sucessos que os estudantes ainda se emocionam ao ouvir. Não se arrepende, mesmo que haja noites melancólicas em que lamenta a saudade dos filhos, sabe que há manhãs frias e claras para apoiar os que ainda sonham e protestam. Na mulher nunca mais pensou, aqui já teve muitos outros afetos eternos desde sua chegada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-7786079564982046467?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/7786079564982046467/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/andancas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/7786079564982046467'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/7786079564982046467'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/andancas.html' title='Andanças'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-9168058042942918472</id><published>2011-11-18T11:10:00.000-08:00</published><updated>2011-11-18T11:13:45.797-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Regina Blacher'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Apontamentos de um crime</title><content type='html'>&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Meu amigo,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Eu já não aguentava mais tanta treta. Era sempre a mesma coisa. Marina queria dinheiro pro leite, dinheiro pras fraldas, dinheiro pro médico, dinheiro pro gás. Queria que eu fosse junto, que eu pegasse no menino, embalasse o menino, falasse com o menino. Almoçasse com a família, jantasse com a família, tomasse café com a família!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Eu sou um sujeito calmo. Lá no bar todo mundo me conhece. Nem o futebol me altera. Nunca bati em mulher. Até a Janda, que é uma safada, todo mundo sabe,  se salvou.&lt;br /&gt;            Aquilo era demais! Eu só pensava em acabar com aquela falação, aquela pegação, aquele enjôo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sosseguei até conseguir uma arma e daí, foi na mesma noite. O Chicão, parceiro de pelada, me passou o bufo.  Chamei ela lá pros lado do Partenon. Parei numa rua com pouco movimento e não foi preciso dar muita corda. Foi só dizer que não ia na feijoada do sábado. Ela começou o show e eu terminei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Sr. Doutor,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Não entendi nada. Tudo bem, eles estavam discutindo ou, pelo menos, a mulher estava desabafando, chorando. O homem parecia calmo, contido. Não dizia nada! Passei por lá devia ser mais de meia-noite. Vinha da casa da minha namorada que mora a duas quadras dali. Eu vinha até feliz porque o pai dela tinha ido com a minha cara. Era a primeira vez que nos víamos. A mãe eu já conhecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Voltando ao assunto, aquilo estragou a minha noite! Dois tiros! Dois balaços! Sangue por todos os lados, a mulher caída no chão e o camarada e-va-po-rou. Só sei que tinha um casaco preto e umas chuteiras amarelas. Quem é que mata a mulher usando chuteira? E amarela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;            Apontamentos&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Ele morava num barraco com a mulher e a criança de um ano e meio. Estavam juntos desde a gravidez da mulher. Os vizinhos contam que eles discutiam todas as noites, quando ele chegava em casa meio bêbado. A mulher começava reclamando, primeiro num tom normal, depois gritava e chorava. Ameaçava ir embora com a criança. Era aí que ele se jogava no chão e prometia que nunca mais tocava na pinga.&lt;br /&gt;          &lt;br /&gt;O Joca, que mora ao lado, já ia adiantando pra Marlene, sua companheira, com uma linha de antecipação, todo o diálogo.&lt;br /&gt;          &lt;br /&gt;Já eram motivo de gozação na vila. Quando apareciam juntos, sempre tinha um engraçadinho que perguntava: -Então, e hoje, que horas começa? Uma noite, puseram todas as cadeiras do boteco debaixo da janela deles, como se fosse um teatro.&lt;br /&gt;          &lt;br /&gt;A opinião geral é que a situação estava insustentável. Aquilo ia explodir. Só não se sabia quando, como e onde.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-9168058042942918472?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/9168058042942918472/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/apontamentos-de-um-crime.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/9168058042942918472'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/9168058042942918472'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/apontamentos-de-um-crime.html' title='Apontamentos de um crime'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-6226378912427465070</id><published>2011-11-18T06:39:00.000-08:00</published><updated>2011-11-18T06:42:10.435-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Luiz Fernando Farina Keller'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Capitão Rodrigo no RS de hoje</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Luiz Fernando Farina Keller&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;“Mas chê loco!” – Exclamou Rodrigo, ao chegar à capital.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em sua face era notório o espanto. Encontrava-se deveras abismado com as inovações nunca vistas em sua terra, principalmente com as cascas de ferro que deslizavam sobre quatro rodas e as pequenas vestimentas das moças que viu pelas estradas, cheias de placas, supreendentemente pintadas de preto e tracejadas de amarelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do encanto e dos inúmeros questionamentos que fervilhavam em seu porongo, estava cansado das batalhas diárias e da longa viagem. Queria apenas um trago e uma mulher: havia dois meses que não tinha uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para tanto, troteou um pouco mais e, após avistar uma fila de prendas lindas de pele à mostra e de rapazotes de roupas esquisitas, amarrou o cavalo, pensando consigo: “Cheio de afrescalhados! Esses inventos não fazem bem pro índio!”. Deu-lhe dois tapas fortes de despedida e partiu em direção ao bolicho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodrigo passou ao longo da fila, inclinando respeitosamente o rosto: “Buenas noches, senhoritas!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar na entrada, riu em voz alta: “Dublin? Mais parece nome de bicho. Mas pela quantidade de china, deve tá loco de bom lá dentro!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Distraído, o segurança que monitorava os perfilados não notou que o cidadão de poncho azul, chapéu às costas e lenço encarnado havia furado a fila. Ainda não o havia visto, mas diante do silêncio dos demais, não questionou a sua chegada. Estranhou sua roupa, mas, a fim de acelerar seu trabalho, foi direto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nome?” – Perguntou o funcionário, cabisbaixo, pronto para anotar na comanda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Capitão Rodrigo Cambará, amigo. Aperte os ossos!” - Estendeu a mão o gaudério, com um sorriso no rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O funcionário não entendeu muita coisa, mas compreendeu o gesto e cumprimentou-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bonito o seu bolicho! Suponho que a sua graça seja Dublin.” – Complementou o Capitão, reforçando o U da primeira sílaba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O funcionário gargalhou, apertou-lhe a mão novamente e entregou-lhe a comanda: “Figuraça! Pode subir que os garçons vão lhe atender”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodrigou estranhou o papel que recebeu, mas o guardou, entendo-o como um mimo. Subiu uma pequena escadaria que dá acesso ao galpão, analisando ostensivamente as mulheres, mantendo a sua postura ao chegar ao final do curso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Buenas e me espalho! Só não completo meu cumprimento porque só tem fresco neste pago!” – Entoou alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucas pessoas o ouviram, pois o volume da música era muito alto, mas as que o notaram, olharam-no com o canto dos olhos, censurando seu comportamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após desmanchar um pouco do seu sorriso irônico, Rodrigo abancou-se. Esparramado, chamou o garçon: “Amigo! Me vê uma canha da buena! Ligeiro!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o funcionário dirigia-se para dentro do galpão, a fim de cumprir a sua ordem, passou uma linda mulher por trás do Capitão. Atento, com sua mão esquerda, segurou-a forte pelo braço direito e a galanteou, olhando-a profundamente, mas sem retirar aquela meia lua do rosto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“És muy bela, senhorita! Senta-te ao meu lado e vamos prosear um pouco."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça apreciou seu porte e sua pegada, porém, estava de saída: “Olha... não posso, mas me dá o MSN para conversarmos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O capitão gostou da resposta. O sorriso de canto de rosto foi vagarosamente às orelhas. Virou para o lado e gritou: “Amigo, desce 10 eme-esse-enes aí pra china, que hoje vai ter!!!"&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-6226378912427465070?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/6226378912427465070/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/capitao-rodrigo-no-rs-de-hoje.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6226378912427465070'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6226378912427465070'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/capitao-rodrigo-no-rs-de-hoje.html' title='Capitão Rodrigo no RS de hoje'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-5372313228283962786</id><published>2011-11-07T03:48:00.000-08:00</published><updated>2011-11-07T03:49:52.235-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Giselle dos Santos Steinstrasser'/><title type='text'>Aventura</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Giselle dos Santos Steinstrasser&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Naufragaram. Era noite de tempestade. Havia algo luminoso à distância. Remaram até lá. Um gigantesco prédio, todo envidraçado, no meio do mar. Subiram numa espécie de peitoril, bateram na janela. Uma chinesa abriu. Pediram ajuda. Ela informou que precisava verificar o protocolo para essa situação. E eles equilibrados em pouco mais de trinta centímetros de cimento. Bateram novamente. A chinesa voltou. Eles explicaram que estavam exaustos, não aguentariam muito tempo. Ela disse que chamaria um supervisor. Algo na água. Uma barbatana. Se movia rápido, direto neles. Bateram outra vez, desesperados pediram ajuda. A chinesa fez sinal de que precisava terminar de preencher os papéis. O tubarão saltou, a boca aberta, enorme. Medonho. Eles se jogaram contra o vidro. Gritaram. Era só abrir a janela. Só. A chinesa fez sinal para que aguardassem. Sentiram o bafo podre do tubarão. Iriam morrer. Faltava pouco. Fecharam os olhos. Nada... Ainda nada. Olharam. Uma orca havia pego o peixe. Então se encolheram, esperando pela burocracia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-5372313228283962786?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/5372313228283962786/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/aventura_07.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5372313228283962786'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5372313228283962786'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/aventura_07.html' title='Aventura'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-1063548779355881102</id><published>2011-11-07T03:44:00.000-08:00</published><updated>2011-11-07T03:46:43.028-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Nicole Carina Siebel'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Minicontos'/><title type='text'>AVENTURAS</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nicole Carina Siebel&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijou-o com paixão ímpar. Pela tela do computador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos de Viviana estudavam pela janela o que se passava do outro lado da rua. Havia na pracinha um grupo de crianças que brincavam com baldinhos e pás, construindo o mais lindo castelo de areia do mundo. E como eram felizes, sorrisos no rosto e mãozinhas sujas de terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Viviana tinha uma boneca feita de porcelana cara, que estava sentada na mesinha de chá, imaculada, cabelos bonitos e penteadas. Vivi usava vestido cor-de-rosa, enfeitado, e anelzinho de pérola. Tinha um castelo cor-de-rosa cheio de torres e uma carruagem de princesa, mas o que não daria por um pouco de areia!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-1063548779355881102?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/1063548779355881102/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/aventuras.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/1063548779355881102'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/1063548779355881102'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/aventuras.html' title='AVENTURAS'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-569380164509405814</id><published>2011-11-03T14:48:00.000-07:00</published><updated>2011-11-03T14:49:12.125-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Regina Blacher'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Aventura</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Regina Blacher&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Aventura é um beijo na madrugada. Frio na espinha. Um toque de uma mão que treme e chega. Encosta. Dez mil horas, dez mil vertigens. Vervirgens. Só os virgens têm vertigens? Certamente, a primeira vertigem é a mais profunda, a que tonteia mais, a que cega mais, a que tapa o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele beijo foi assim. Começou de tarde. Numa tarde. Numa tarde em que Joana entrou no bar da faculdade e Pedro vinha caminhando. Nunca soube se ele estava saindo e desistiu ou estava indo apenas até ali mesmo.&lt;br /&gt;Raios saíram dos olhos dele. Chispas saíram dos olhos dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo o que aconteceu em seguida ficou assim, determinado por aquele eixo. Eles rodaram a posição, mexeram braços, pernas, sorrisos, palavras, só não mudaram o olhar.&lt;br /&gt;Os olhos de Joana tinham ficado azuis e os de Pedro, castanhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, a luz foi-se ajustando. O brilho do flash focou um lábio. Uma pestana. Uma narina respirando. Uma confusão de pedaços dele, uma confusão de pedaços dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perder o controle. Dar o controle. Seguir o controle. Seguir o instinto. Instintar o controle.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguir aqueles olhos, seguir aquelas pernas e aqueles caracóis.&lt;br /&gt;Ser seguida. Ser seguida até ser tocada e sentida e definida como uma parte de novo inteira e intensa e viva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tocar até encontrar a própria pele, e beijar até encontrar o próprio sopro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-569380164509405814?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/569380164509405814/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/aventura.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/569380164509405814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/569380164509405814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/aventura.html' title='Aventura'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-5374191030488707023</id><published>2011-11-03T09:03:00.000-07:00</published><updated>2011-11-03T09:04:05.904-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Maurem Kayna'/><title type='text'>Desencontros</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span email="mauremkayna@uol.com.br"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Maurem Kayna&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span email="mauremkayna@uol.com.br" class="gD" style="color: rgb(0, 104, 28);"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span email="mauremkayna@uol.com.br" class="gD" style="color: rgb(0, 104, 28);"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Pediu um analgésico forte. A enfermeira respondeu que não poderia fornecer nenhum medicamento não previsto no seu prontuário, mas assim que o médico passasse pelo posto ela comentaria sobre sua dor. O residente era atencioso, viria vê-la, com certeza. Tentasse dormir. Quem sabe um chazinho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beatriz não se deu ao trabalho de argumentar e sequer recusou o chá, mas precisava mesmo era de um sonífero potente e só falou em analgésico porque imaginou maiores chances de ser atendida. Sem conseguir o que queria, aferrou-se ao incômodo físico, expressando-o em gemidos sem energia, apenas como um artifício para não pensar, concentrada no rumor que escapava dos lábios ressequidos fugia do único pensamento disponível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentia-se desperta como nas manhãs de férias dos tempos da adolescência, quando dispensava o despertador e levantava com ânimo de primavera, arrumava-se e ia para a quadra treinar. Mas agora era diferente, e a dimensão dessa diferença tornava maior a vontade de fuga. As feridas ardiam e nos intervalos do próprio gemido, as frases dele voltavam, misturando-se ao cheiro asséptico dos lençóis e fazendo o estômago se contrair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentou forçar a lembrança para situar-se no tempo, mas não tinha conta dos dias no hospital, sabia de pelo menos cinco anoitecimentos. Foram muitos mais desde a tarde em que a socorreram na estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhuma enfermeira disse claramente, nem o médico que interpretava os registros na planilha ao pé da cama e os aparelhos aos quais estava ligada. Ela também preferia não perguntar, mas tinha quase certeza de ter perdido o mando das pernas, pois o corpo todo doía, dentro e na pele, mas elas se mantinham mudas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A irmã foi visitá-la quando acordou, e talvez tivesse ido antes também, mas Beatriz achava isso pouco provável. E ele? Não queria acreditar que seria duro o bastante para insistir na sua palavra de não querer vê-la novamente, mesmo com toda a ênfase de sua sentença quando soube da situação com Amanda e com aquele gesto querendo ser tão definitivo – rasgar a certidão na frente dela. Não, ele só não tinha coragem de encarar suas cicatrizes, nem habilidade para consolá-la caso realmente não pudesse mais andar, mas acabaria vindo. A espera, porém, exigia mais paciência do que lhe era natural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esses pensamentos – contidos e cerceantes, mal haviam se formado esfacelaram-se sob o grito que fez a enfermeira correr ao seu leito. Convulsionava em choro quando vieram atendê-la, e o sedativo foi administrado para garantir o repouso dos outros pacientes da unidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beatriz dava a impressão de dormir sem dor. Assim a encontraram na visita seguinte, quando, finalmente, a irmã dela conseguiu convencê-lo a ir também. De início acharam até melhor que ela não acordasse, assim era mais fácil falar com o médico sem medir o timbre da voz e para não correr o risco de que ouvisse os prognósticos desanimadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois das palavras diretas do especialista se demoraram olhando o seu rosto quase cicatrizado e os sinais indecifráveis dos aparelhos que comandavam a entrada e saída de ar dos seus pulmões. Nele o remorso cutucava com força e na irmã residia uma ausência morna, quase conformação. Sem trocar palavra alguma olharam-se sem poder dissimular o desgosto que o ritmo da respiração imposta – tranquila como não costumava ser antes do acidente – lhes provocava.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-5374191030488707023?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/5374191030488707023/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/desencontros.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5374191030488707023'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5374191030488707023'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/desencontros.html' title='Desencontros'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-2655677343850172383</id><published>2011-11-01T09:52:00.001-07:00</published><updated>2011-11-01T13:17:11.540-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Minicontos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mardilê Fabre'/><title type='text'>Décimo Andar</title><content type='html'>&lt;p style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Mardilê Friedrich Fabre&lt;/p&gt;De novo o mesmo pesadelo. Perseguido, atirava-se de uma janela do 10º andar. O som das sirenes, embora longe, o incomodavam. A cabeça lhe doía. Tomou um comprimido para dor. Debaixo do chuveiro, lembrou-se. Chegara tarde e ... acompanhado! Correu para a janela. Aberta. Na calçada, amontoavam-se algumas pessoas. Perturbou-se. Morava no 1011.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-2655677343850172383?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/2655677343850172383/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/decimo-andar.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2655677343850172383'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2655677343850172383'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/11/decimo-andar.html' title='Décimo Andar'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-8744166943899579699</id><published>2011-10-24T09:01:00.000-07:00</published><updated>2011-11-01T13:17:14.505-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Resenhas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mardilê Fabre'/><title type='text'>Por que Construção, de Chico Buarque, é criativo?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Mardilê Friedrich Fabre&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A criatividade de Chico em Construção está em “não dizer”, naquilo que Marcelino Freire chama de “quarto escuro”. Chico não diz que os brasileiros eram proibidos de falar, que viviam um falso tempo de desenvolvimento, nem que os líderes desapareciam pouco a pouco, nem que os grandes “cérebros” eram obrigados a se afastar do país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada vez que ouço Construção descubro um significado novo nos versos e desde a primeira vez que a ouvi me vem à mente a imagem de um tabuleiro com as palavras proparoxítonas todas misturadas, as quais ele pega e vai (des)construindo frases com significados inusitados. A (des)construção do poema está na troca das  últimas palavras dos versos. Este jogo de palavras me atrai por ser (pelo menos para mim) um dos mais inteligentes que já li.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele já inicia a letra terminando os dois primeiros versos com a repetição da palavra última, como se abrisse a cortina de um palco onde será encenada uma tragédia cujo fim lógico é a morte, uma espécie de premonição, de aviso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um texto de cunho social muito forte, cujo protagonista é um pedreiro, o profissional que está no mais baixo patamar da construção, um sem rosto (Quem o percebe? Quem lhe dirige a palavra? Quem sabe de sua vida?). Um anônimo que constrói prédios nos quais jamais poderá morar, construindo ao mesmo tempo uma vida que passa ao largo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a letra nos remete a um ser cuja vida é insípida, que sofre, mas que sonha com uma vida diferente: a repetição da expressão como se revela-nos isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora seja um autômato (máquina) e como tal trabalha, ama e come, ele dança e gargalha (do quê? da vida? de si? de quem não sabe construir? de quem não sabe sonhar?), bebe como um náufrago (afogando-se na miséria? no tédio? na monotonia da repetição?) ele voa como se fosse um pássaro (livre para fazer o quiser, para dizer o que pensa, a mente não pode ser subjugada) e vive como se fosse um príncipe (dono de si, das suas ações, respeitado e admirado).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A letra tem três estrofes: as duas primeiras têm 17 versos e a última, sete, como corte repentino ( como a morte do pedreiro), um resumo, um, fim inesperado, mas nesta estrofe reforça as ideias de ações mecânicas, como amar, beijar e sonhar, quando fala em levantar “paredes flácidas”, que poderiam ser derrubadas ou, quem sabe, cair, um paradoxo, porque os brasileiros viviam numa ditadura que enclausurava, que oprimia, que torturava, que proibia a livre expressão do pensamento, e derrubadas as paredes, voltariam a ser livres como os pássaros, uma esperança que não morria, e viver como príncipes( quem eram? os donos do poder? os que mandavam construir prédios luxuosos num país de pobres? os que tiravam dos pobres?) .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele morre na contramão atrapalhando o tráfego, e naturalmente o público, num sábado? Uma morte trágica: como ousa um joão-ninguém, um bêbado (atravessa a rua com passo tímido, “como se” estivesse bêbado), que passa a vida completamente despercebido (como tantos brasileiros), morrer chamando a atenção, atrapalhando o quotidiano de tantos? E por que atrapalha? Porque não tem um carro, porque nada se sabe dele, porque não tem rosto, porque há pressa, porque é tímido, porque não existe consideração com o ser humano...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito se tem analisado Construção, de Chico Buarque, desde que o disco veio a público em 1971, quando se vivia a pior fase do Regime Militar. Na época, o autor voltava de seu exílio, e a censura, em geral vetava (ou liberava com cortes) suas obras. Logo que este disco saiu, lembro que uma pergunta que se fazia era como uma letra de cunho social como esta, um forte grito de socorro de um povo subjugado (pedreiro), sofrido, cujos olhos “estão embotados de cimento e lágrima”(impedidos de ver com clareza o que se passava verdadeiramente) saiu sem cortes. Bem mais tarde, li (não me lembro onde) que a letra foi liberada na íntegra, porque a gravadora enviara com a letra para os censores uma carta solicitando que a letra fosse vetada. Para contrariar, eles a liberaram. Não sei se é verdade isso. Mas sei que foi um dos discos mais escutados pela juventude da época.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-8744166943899579699?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/8744166943899579699/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/10/por-que-construcao-de-chico-buarque-e.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/8744166943899579699'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/8744166943899579699'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/10/por-que-construcao-de-chico-buarque-e.html' title='Por que Construção, de Chico Buarque, é criativo?'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-7793882171031884561</id><published>2011-10-21T08:15:00.000-07:00</published><updated>2011-10-21T08:28:06.439-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Felipe Longhi Malheiro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Minicontos'/><title type='text'>Aventura</title><content type='html'>&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Felipe Longhi Malheiro&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fugiu de casa. Não aguentava mais ser bem tratado.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-7793882171031884561?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/7793882171031884561/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/10/aventura.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/7793882171031884561'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/7793882171031884561'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/10/aventura.html' title='Aventura'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-332109175755322700</id><published>2011-01-28T07:58:00.000-08:00</published><updated>2011-01-28T08:00:06.485-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Michele Cardoso'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônicas'/><title type='text'>Bom dia personalizado</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;Michele Cardoso&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;"Todo dia ela faz tudo sempre igual...", diz a música. Só que eu simplesmente não consigo acordar às seis horas da manhã. A minha manhã deveria começar, no máximo, às sete horas. Deveria, só que o meu despertador toca de cinco em cinco minutos até às sete e meia. Acredito que eu não seja a única a sofrer dessa adorável preguiça matinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde que abro os olhos, duas palavrinhas me vêm em mente. Elas vêm e ficam ali, cutucando. Levanto e inicio a sucessão de ações automáticas que me obrigam a aceitar minha condição de pessoa responsável e acordada – embora meus neurônios custem a se convencer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cumpridos os protocolos diários, estou pronta para sair de casa e ir para o trabalho. As palavrinhas seguem a me perturbar. Reluto em abrir a porta. Será que vou encontrar alguma vizinha? Talvez o zelador ou o carteiro? Quem ouvirá meu primeiro “Bom dia” de hoje?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim. As palavrinhas que me perseguem são estas: “Bom dia”. E lá vou eu cumprimentando o porteiro do prédio vizinho, a moça do mercadinho da esquina, o motorista da lotação, o jardineiro que trabalha na rua do meu trabalho, o segurança que fica na portaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ufa! Cheguei. Agora só falta mais um simpático e sonoro “Bom dia!”, depois vou poder utilizar outras palavras do meu vocabulário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem bom se fosse assim. Mas não é. As pessoas precisam de “Bom dia” individualizado. Faça o teste. Eu já tentei dizer: “Bom dia, pessoal!”; “Oi, gente!”; “Olá, colegas!”; “Tudo bem?!”; entre outras expressões. Não funciona. Só o que vale é o bom e velho “Bom dia, fulano”. Mesmo assim, sempre tem aquele que, dez minutos depois de ouvir o seu “Bom dia” personalizado, olha pra mim e diz: “Bom dia, Michele”, como se eu tivesse deixado de cumprimentá-lo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode parecer rabugice, mas acho a ditadura do “Bom dia” uma falta de espontaneidade. Certa vez me rebelei. Só para implicar com um chefe ranzinza, chegava todo dia e dizia: “Oi, Seu Fulano”. Ele respondia: “Bom dia, dona Michele”. Insisti na rebeldia por um mês e descobri que é melhor não mexer na ordem estabelecida. Por fim, disse “Bom dia”. E fui procurar outro emprego.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-332109175755322700?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/332109175755322700/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/01/bom-dia-personalizado.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/332109175755322700'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/332109175755322700'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/01/bom-dia-personalizado.html' title='Bom dia personalizado'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-5771526621123760723</id><published>2011-01-21T07:01:00.000-08:00</published><updated>2011-01-21T07:02:09.824-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Miguel Silveira'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Baltimore</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Miguel Silveira&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Quem caminhar por Baltimore, há alguns metros do cruzamento da Ostend St. com a Leadenhall St. perceberá um prédio de tijolos à vista  em que há quase duas décadas funcionava uma conhecida loja de conveniências da região. Cecil Johnson era seu proprietário e há mais de quinze anos lutava para manter aberta a loja, pois apesar do bom movimento que recebia durante o horário comercial, lutava para, todo mês deixar em dia o aluguel do ponto e pagar as parcelas da casa financiada em um conjunto de classe média há algumas quadras dali. Pensando unicamente na família, que tinha aquela loja como único meio de subsistência, deixava sua mulher trabalhando até o final do dia, quando chegava, mantendo o estabelecimento aberto até o fim da madrugada. Enquanto a mulher trabalhava em horário diurno, seu filho, Teddy de treze anos ajudava o pai na compra e carregamento dos estoques de mercadoria ou a mãe na limpeza e organização dos produtos da loja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A noite de 15 de novembro de 1992 traria consequências que colocariam em extinção a aparente ordem daquela família. Um frio insistente pairava pela cidade há mais de uma semana, e Cecil mantinha a porta de vidro da loja de conveniências completamente fechada, enquanto tomava o café feito em casa, trazido em garrafa térmica. No balcão da loja, chicletes e algumas outras guloseimas. Na prateleira acima da caixa registradora, estavam dispostos em ordem os maços de Camel, Hollywood, Marlboro, Benson &amp;amp; Hedges, West e outros. Quinzenalmente, as noites de domingo eram movimentadas, quando os torcedores do Baltimore Orioles voltavam do estádio. Estacionavam na loja e compravam cerveja, refrigerante, pizza pronta, sanduíche. Às 03h42min, quando o movimento da rua era menor, um rapaz negro, de 22 anos, com um moletom azul-escuro fez gemer a porta de vidro e entrou um pouco alterado na loja. Cecil, como bom fisionomista, reconheceu o rapaz. Era Brandon, filho da faxineira do colégio onde seu filho estudou nos primeiros anos de escola primária. Ultimamente, Brandon era visto vagando dia e noite pelas ruas, nas más companhias. Das conversas nas esquinas para efetuar pequenos furtos para a gangue não foi muito difícil. O pai de Brandon era um viciado em cocaína que havia largado a mulher e estava preso em Minneapolis há mais de dez anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Após olhar para o lugar cuidadosamente, Brandon aproximou-se do balcão. Cecil olhou deu um pequeno passo para o lado, aproximando-se da Smith &amp;amp; Wesson .45 que deixava sempre perto do  balcão. Brandon notou a movimentação de Cecil, e tentando desviar a atenção do comerciante, perguntou o perco dos cigarros. O diálogo frio entre comerciante e assaltante resultou numa explosão de tiros: sacando a arma do bolso frontal do moletom, Brandon apontou o revolver para Cecil, que em um movimento instintivo, cambaleou para o lado, buscando o a pistola e atirou. Em uma explosão, dois tiros simultâneos atingiram dois corpos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em frente à estante de hambúrgueres, Brandon tombou com o corpo torcido, e um buraco abaixo do olho esquerdo conectava-se, cabeça adentro com rombo atrás da orelha direita. Cecil para trás com um tiro na coxa. Muito sangue empapava as calças e as mãos do comerciante. Buscando o telefone, ligou para a ambulância, que em pouco tempo estava socorrendo Cecil. Todo esforço foi inútil para estancar o sangue que vazava da artéria atingida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas horas depois, no hospital mais próximo dali, uma tentativa de cirurgia buscava reverter a hemorragia. Cecil faleceu no mesmo dia, logo ao amanhecer. A família, que buscava consolar-se com parentes e amigos, enterrou o comerciante ao lado do túmulo de sua mãe. Tentando proteger seu patrimônio e sua vida, Cecil deixou uma loja, uma família e um silêncio na boca de todos que compareceram ao enterro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-5771526621123760723?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/5771526621123760723/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/01/baltimore.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5771526621123760723'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5771526621123760723'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/01/baltimore.html' title='Baltimore'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-7133525293487286177</id><published>2011-01-21T06:59:00.000-08:00</published><updated>2011-01-21T07:00:18.987-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Lilia Feres'/><title type='text'>Solidão</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Lilia Feres&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Como num dia qualquer, ele acordou, saiu da cama e fez xixi. Foi em direção aos quartos em busca da rotineira algazarra matinal. Fuçou aqui, fuçou ali e nada. Rumou para a sala a fim de encontrar companhia, já que ninguém o havia procurado ainda. Para aumentar sua frustração, o sofá estava vazio. Pulou na chaise. Ela estava fria e o cheiro já não era mais tão forte. Voltou-se para o telefone e notou a pequena luz vermelha piscar ritmadamente. Alguém tentou entrar em contato. Seguiu para o pátio, onde sentiu um vento atípico para aquela época do ano envolver seu corpo feito um abraço. Era um abraço forte, mas frio, como se estivesse anunciando algo. Não parecia ser coisa boa. Ele olhou para o varal e viu uma porção de roupas estendidas, que pareciam ser as mesmas de outro dia, e de outro e de outro. Os brinquedos do menino estavam jogados na grama. Alguns haviam até perdido a cor. A água da piscina estava com uma aparência péssima e um gosto terrível, mas era o que tinha para beber. Foi até a janela que dá vista para o quintal. Viu que havia muitos jornais, camuflados por punhados de folhas secas e muita poeira, junto ao pé da porta. Sentiu uma vontade quase incontrolável de sair correndo, apanhá-los com cuidado e entregá-los ao seu companheiro. Exatamente como fazia todas as manhãs, exceto em dias de chuva, para não deixar marcas de lama no assoalho. Foi então que ele entendeu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-7133525293487286177?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/7133525293487286177/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/01/solidao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/7133525293487286177'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/7133525293487286177'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/01/solidao.html' title='Solidão'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-5190081343185137920</id><published>2011-01-21T06:58:00.000-08:00</published><updated>2011-01-21T06:59:08.780-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mário Lúcio'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>O vacilo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mário Lúcio&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O cheiro do papelão lhe era familiar. Tudo lhe era familiar, desde a menina que passava vendendo cigarros até o garçom com o perfume irritante e adocicado. Os olhares se cruzavam a todo instante e, em determinados momentos, convergiam para o centro da mesa. Tudo calculado. As expressões, os gestos e ações faziam parte do seu ritual e dos parceiros. Ele, escondido atrás de figuras e números, esperava o momento do bote. Tudo normal como sempre esteve. O blefe, o engodo ou a dissimulação, tudo extremamente familiar. Tudo cronometrado, calculado e analisado. No instante crucial, pelo qual ele já passara em inúmeras ocasiões, o Incrível, o inacreditável, o imponderável (pelo menos para ele, é claro) aconteceu. Pela primeira vez desde o todo e sempre, ele vacilou. Distraiu-se. Sucumbiu. Desconcentrou-se. Pela primeira vez ele, não o seu corpo, abandonou a mesa. Pela primeira vez ele flutuou sobre o ambiente de penumbra, fumaça e odores confiáveis. Pela primeira vez ele notou os olhos da menina que passava vendendo cigarros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-5190081343185137920?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/5190081343185137920/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/01/o-vacilo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5190081343185137920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5190081343185137920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/01/o-vacilo.html' title='O vacilo'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-3258311455749604084</id><published>2011-01-21T06:56:00.000-08:00</published><updated>2011-01-21T06:57:37.821-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mário Lúcio'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Suspiros</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mário Lúcio&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Sempre suspirei. Desde menina minha mãe falava sobre os meus suspiros. Anos mais tarde, eram os amigos que faziam observações diversas a este hábito. Nunca dei bola. Hoje que sou adulta, eu mesma me pego suspirando diversas vezes e não sei o motivo. Por não saber exatamente o que é um suspiro, corri ao dicionário para ter uma descrição sobre o hábito. Encontrei o seguinte: s.m. (sXIII) &lt;span style="font-style: italic;"&gt;1 inspiração mais ou menos profunda e prolongada, seguida de expiração audível, motivada por incômodo físico ou psíquico ou por alívio, satisfação etc.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Creio que deve ser aminha concentração que o desencadeia. Reparei que o suspiro vem logo depois de um momento de concentração. Sou muito concentrada. Sou muito obstinada. Sou muito teimosa. Quando estou no meio de um processo de criação, trabalho com produção de vídeo, esqueço de tudo, do mundo e inclusive de mim. Passo horas editando vídeos, isto é, montando imagens no notebook, estas colhidas com minha câmera de vídeo digital. Gravo vernissagens, documentários e eventos relacionados à arte. Registro arte. Adoro arte. Respiro arte. Meu suspiro deve vir, conforme a definição do dicionário, por alívio ou satisfação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Outra obstinação que tenho é navegar. Tenho um amigo, cheio do dinheiro, que me empresta um de seus barcos. O barco é praticamente meu. Frequentemente vou ao ancoradouro e vistorio a sua manutenção. Tem vezes que entro no neste barco e fico horas trabalhando nas minhas imagens. Eu sou obstinada. Tem vezes que meu pé adormece. Levanto, caminho, tomo água, como alguma coisa e volto correndo para o computador. Tenho a desconfiança de que quando estou concentrada paro de respirar. Ao término da tarefa vem aqueeele suspiiiro. Outras vezes navego só. É o céu, a água, o barco e eu. Dificilmente tenho companhia. Isto é uma coisa que incomoda o verdadeiro dono do barco, o pessoal da manutenção e o diretor da marina. De certa forma eles estão certos, embora haja um rádio potente a bordo, nunca é seguro velejar só, e além de tudo não sei nadar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A rota da rotina da minha vida seguia de uma forma inalterada. Simplesmente constante. Houve então um trabalho sobre uma exposição de artes plásticas em que o artista utilizou algumas das expressões humanas como argumento. Uma infinidade de representações , sorrisos, testas enrugadas, bocas alegres, tristes ou indignadas. Entre elas estavam três quadros que representavam um suspiro. O primeiro inspiração, o segundo expiração e o terceiro representava o rosto satisfeito de uma linda moça loira. Adorei gravar e editar as imagens e depoimentos do artista. Tudo como eu gosto. Sensibilidades e sutilezas, entre outras, representadas pelo pincel mágico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O dinheiro foi muito bom e a minha satisfação melhor ainda. Mas o prazo estava apertado. Sabe como são aqueles trabalhos de última hora. O vídeo seria apresentado durante a inauguração da exposição numa galeria que fora construída numa ilha há, mais ou menos, um ano. Eu nunca estivera na ilha. Tudo isso aconteceria às dezoito horas de uma sexta-feira. No dia da apresentação, concluí a montagem exatamente às dezoito horas e quinze minutos. Um quarto de hora além do prazo. O celular não parara de tocar há mais ou menos dois dias. Tudo poderia ter sido mais rápido se não fosse a minha obstinação pela perfeição. Os detalhes me dominavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Quando eu me preparava para zarpar, o tempo começou a fechar. Nuvens espessas cobriam a paisagem cinzenta. O pessoal da marina me aconselhou a não sair com um tempo daqueles. O diretor chegou a telefonar para o meu amigo exigindo uma posição dele em relação à minha teimosia. Eu repetia que  a ida até a ilha seria rápida e segura. O verdadeiro dono do barco me pediu para manter a calma e não sair da marina que ele estava chegando. Tudo inútil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Na primeira oportunidade fugi com a embarcação. Ao me afastar alguns metros do ancoradouro, um aguaceiro desabou sobre tudo. O barco começou a chacoalhar. Aumentei a velocidade do motor. Não foi o suficiente. O celular tocou mais uma vez. Atendi e disse que já estava a caminho. Tudo inútil. Uma rajada de vento mais forte balançou o a embarcação e me jogou para a parte externa. A água e o vento não deixavam eu me agarrar em nada. Fui jogada diversas vezes contra os parapeitos, e numa dessas vezes bati a cabeça. Uma dor enorme correu do centro do meu crânio até a minha nuca. Não vi mais nada. Acho que morri. Nem vi se dei o meu último suspiro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-3258311455749604084?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/3258311455749604084/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/01/suspiros.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/3258311455749604084'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/3258311455749604084'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2011/01/suspiros.html' title='Suspiros'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-6210688660718126201</id><published>2010-01-25T03:54:00.001-08:00</published><updated>2010-01-25T03:54:45.332-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Luís Eduardo Tebaldi Gomes'/><title type='text'>Mesís Lugo é eleito presidente do Paraguai</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Luís Eduardo Tebaldi Gomes&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Mesís Lugo é  um dos filhos bastardos do presidente do Paraguai, Fernando Lugo. Apesar de não ser reconhecido oficialmente, sua mãe – uma vidente conhecida como Lu Mesisgo -, resolveu registrá-lo com o nome do pai, para que a população saiba a verdade no futuro, quando, segundo suas previsões, Mesís se tornará presidente ao vencer o próprio Fernando Lugo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Mesís Lugo é eleito presidente do Paraguai&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesís Lugo foi eleito neste domingo o novo presidente do Paraguai com 50% dos votos válidos. Ele venceu o pleito ao derrotar o próprio pai, Fernando Lugo, que tentava se eleger pela terceira vez para o principal cargo político do país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesís é  um dos filhos não reconhecidos por Lugo, fruto da relação do ex-bispo com uma conhecida vidente do distrito de San Pedro del Paraná, Lu Mesisgo. Segundo ela, a criança recebeu o nome do pai para que o povo paraguaio soubesse da verdade quando a hora dele concorrer à presidência chegasse. Mesisgo teria previsto que seu filho seria eleito presidente antes mesmo de nascer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesís foi o último filho de Lugo a aparecer na mídia. Ele foi descoberto em 2010 por uma rede de televisão local que realizava um especial sobre as pessoas comuns que tinham o mesmo nome do presidente Lugo, a época conhecido como “irmão dos pobres”. Mesís ficou famoso rapidamente por ser o filho mais velho do ex-bispo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 2018, com apenas 18 anos, entrou para a Alianza Nacional, uma dissidência da Alianza Patriótica para el Cambio (APC), partido do então presidente Lugo. Mesís logo se tornaria uma das principais lideranças estudantis do país. Com um discurso combativo às políticas de seu pai, Mesís ganhou projeção política no distrito de San Pedro del Paraná, sendo eleito governador local aos 25 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início de 2029, quando se aproximava o fim de seus quatro anos de governo, ele anunciou candidatura à presidência do país. O favoritismo inicial de Mesís, tratado como salvador da pátria pela população, nas pesquisas, obrigou o APC a lançar o nome de Fernando Lugo para um terceiro governo. O ex-bispo estava afastado da vida política desde o término de seu segundo mandato, em 2017.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, a polêmica vida pessoal do ex-presidente pesou nas campanhas e Mesís acabou dominando a corrida desde o início. Aos 29 anos, ele se torna a pessoa mais jovem a se eleger presidente de um país na América do Sul.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-6210688660718126201?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/6210688660718126201/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2010/01/mesis-lugo-e-eleito-presidente-do.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6210688660718126201'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6210688660718126201'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2010/01/mesis-lugo-e-eleito-presidente-do.html' title='Mesís Lugo é eleito presidente do Paraguai'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-6209350070075094867</id><published>2010-01-25T03:52:00.000-08:00</published><updated>2010-01-25T03:53:58.392-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Luís Eduardo Tebaldi Gomes'/><title type='text'>Cardiograma</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Luís Eduardo Tebaldi Gomes&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Mesa, pasta, cartão, porta giratória. Bolso, chave. Carro. Porta, banco reclinável, cinto de segurança, espelho, retrovisor, freio de mão, embreagem, marcha ré, acelerador. Volante, embreagem, marcha, acelerador. Rádio, janela, retrovisor, pisca. BUZINA. Freio, freio, freio. Freio de mão, porta-luvas, lenço de papel, freio de mão, embreagem, marcha, acelerador (...) Sirene. Freio, embreagem, marcha, acelerador, volante, freio. Sirene, freio de mão, pisca alerta. Porta-luvas, CD, rádio, botão de volume, janela, ar condicionado. Buzina. Freio de mão, embreagem, marcha, acelerador, embreagem, marcha, freio, freio de mão. Buzina, BUZINAS. Freio de mão, embreagem, marcha, acelerador, embreagem, marcha, freio, freio de mão. Porta luvas, cigarro, cinzeiro, ar condicionado, janela, botão de volume, sapato. (...) Freio de mão, embreagem, marcha, acelerador, embreagem, marcha, acelerador, Ambulância, maca, lona, para-médicos, buzina, BUZINAS. Embreagem, marcha, acelerador, embreagem, marcha, acelerador, embreagem, marcha, acelerador, ar condicionado, janela. (...) Freio, embreagem, ponto morto, freio de mão. Porta, bolso, chaves, porta, Calmante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-6209350070075094867?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/6209350070075094867/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2010/01/cardiograma.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6209350070075094867'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6209350070075094867'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2010/01/cardiograma.html' title='Cardiograma'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-6896179444613492210</id><published>2010-01-19T07:57:00.000-08:00</published><updated>2010-01-25T03:52:20.721-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vitória Leiria'/><title type='text'>Ângelo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Vitória Leiria&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Ângelo, filho de uma costureira, Clara, e de um torneiro mecânico, Pedro, crescera em meio às linhas e agulhas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Quando Ângelo completou sete anos seu pai, com certa desconfiança e receio quanto ao futuro do filho, passou a ensinar-lhe o seu ofício levando-o todos os dias para a oficina depois da escola.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Na escola, Ângelo, aparentemente, demonstrava ser um aluno normal, taciturno, retraído. Porém um dia ele desentendeu-se com um colega que o chamara de “bicha”. Nesse dia seu pai foi chamado à Escola e foi então que ele começou a desconfiar que algo não ia bem com Ângelo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - A irmã Sofia irá atendê-lo num instante. Disse irmã Teresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Sr. Pedro, por favor, entre!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Irmã, o que aconteceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Seu filho brigou com um de seus colegas de turma. Foi preciso duas pessoas para separar os dois. O Ângelo estava enfurecido. Não tivemos outra opção a não ser chamá-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    O pai, após saber do motivo da briga, ordenou que Ângelo ficasse de castigo naquele fim de semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    O menino passou, sem que a mãe e o pai soubessem, a olhar as revistas de moda que a mãe guardava na sala de costura. Alguns dias depois, Ângelo arrancou uma página da revista e colou em álbum de fotos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Clara, sempre ocupada com as clientes, não dava muita atenção para o filho. Na escola, Ângelo, depois da briga, fez amizade com um colega de turma, Patrício. Os dois passaram a se ver todos os dias. Para estudar, jogar vídeo game, andar de bicicleta ou simplesmente ver TV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    O ano escolar terminou e Ângelo sempre às voltas com o amigo Patrício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    As famílias se encontraram para os festejos do Natal. Uma convivência que aparentemente começara de forma inocente, pelos filhos, prometia distribuir bons frutos. E assim, ano após ano, reuniam-se em churrascos de aniversários e para os festejos de fim de ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Não foi surpresa quando, alguns anos mais tarde,  os dois meninos, já adolescentes terminando o segundo grau, anunciaram que fariam vestibular para medicina. Pretendiam ser cirurgiões plásticos. E assim se sucedeu. O que ninguém suspeitava é que iriam cursar faculdade no exterior e morar no mesmo alojamento. Uma luzinha amarela começou a piscar na mente do pai de Ângelo, ou melhor, dele e na mente do pai do Patrício. As mães, envolvidas com suas tarefas caseiras e de profissão, não se envolviam muito com as tarefas da educação dos filhos. Os maridos assumiam inteiramente a tarefa, e demonstravam preocupação mútua, nas conversas presenciais e por telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    A preocupação não era sem fundamento. Tanto que, no ano seguinte, no natal, os dois compareceram muito alegres, fluentes no papo, demonstrando estarem muito entrosados. A conversa seguiu normal. Apenas na saída, momentos antes de voltar à faculdade, o pai de Ângelo viu algo que poderia denunciá-los. Viu Ângelo passar a mão no rosto do amigo ao entrarem no carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     No aniversário de Ângelo os pais resolveram ir visitá-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     A terra se abriu aos pés de Pedro e o engoliu. Foi essa a sensação que ele teve ao saber do filho de suas preferências sexuais. Ângelo era gay. A mãe chorando abraçou o filho, enquanto o pai, em ebulição, já vislumbrava as portas do inferno sentindo os efeitos de um enfarto fulminante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-6896179444613492210?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/6896179444613492210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2010/01/angelo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6896179444613492210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6896179444613492210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2010/01/angelo.html' title='Ângelo'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-491089725114288682</id><published>2010-01-12T04:36:00.001-08:00</published><updated>2010-01-12T04:36:46.354-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônicas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Volnei Zerbielli'/><title type='text'>Acontecimento histórico</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Volnei Zerbielli&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Era domingo, eu e todos os viventes daquela estância, estávamos na frente da igreja esperando pelo maior, - e quem sabe até - o mais importante acontecimento histórico, que poderia acontecer naquele pedaço do Rio Grande, na época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   O dia tava bonito, ensolarado, o Minuano tinha dado uma trégua; pois tinha feito muito frio nos últimos dias, mas mesmo assim, tava todo mundo de poncho e casacão, que ninguém era bobo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Aquele dia foi um dia especial, todo mundo vestido com a melhor roupa do armário. Nem nas missas, quando o vigário vinha a cada quinze dias, o povo se arrumava tanto. As prendas numa belezura só, a peonada toda de fatiota, gravata, bombacha e chapéu de aba larga, - estes não sobraram nenhum no bolicho pra contar a história -, todos queriam estar a preceito para o acontecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Era um entrevero na frente da igreja; eu nem sabia de onde tinha saído tanta gente. Veio gente de todo lado, veio gente até da capital. Estes chegaram de carro, um tal de Ford T, mais conhecido por Ford Bigode. Teve gente que veio de carro de boi, charrete e a cavalo, afinal de contas ninguém queria perder o acontecimento que era por de mais importante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Enquanto o dito fato não acontecia, o seu vigário, aproveitando a ocasião; ainda mais que tinha gente importante, vinda da capital, começou a discursar, a falar das coisas de Deus e do que representaria o tal acontecimento para a história das pessoas do vilarejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   O povo já tava começando a ficar meio inquieto, e o vigário ali tentando controlar a multidão. Foi quando lá longe se avistou uma poeira levantando no estradão, ela foi aumentando à medida que chegava mais perto, com isso povo, que começava a ficar inquieto, começou a se ajeitar, dar a última conferida nas vestimentas; tava chegando a hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   A poeira baixou. De cima da caçamba de um pequeno caminhão, armou-se um tripé, em cima desse tripé, uma caixa com um formato estranho, com um pano preto atrás. A multidão atenta aos gestos do homem da caixa no tripé, posicionada, aguardava o desfecho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   O fato acontecido naquele dia percorreu por vários lugares do mundo, possibilitou para algumas pessoas encontraram e reverem parentes distantes, outros puderam ver os seus antepassados e ter uma idéia de onde vieram, como surgiram, como eram as pessoas dá época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Para as pessoas que lá estavam aquele dia, era um momento único e especial, pois de alguma forma e de alguma maneira, elas estavam dizendo para todos aqueles que um dia deixaram para trás e para aqueles que desejassem ver e saber como eles estavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   - Eu estou aqui, estou feliz, muito feliz e quero compartilhar esse momento, imortalizado-o em um retrato.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-491089725114288682?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/491089725114288682/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2010/01/acontecimento-historico.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/491089725114288682'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/491089725114288682'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2010/01/acontecimento-historico.html' title='Acontecimento histórico'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-4121105737719031298</id><published>2009-11-23T06:45:00.000-08:00</published><updated>2009-11-23T06:46:10.535-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vitória Leiria'/><title type='text'>Vida de Maria</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vitória Leiria&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Maria ia à feira toda quinta feira. Acordava cedo, caminhava, escolhia, comprava, voltava, separava, guardava, limpava, temperava, assava, servia, recolhia, lavava, guardava, olhava, conversava, suspirava, às vezes chorava, às vezes ria. Quase sempre escrevia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seus contos sempre tinha um João, uma Maria, uma peixaria, um gato, um cachorro, um bonde, flores, vida, historias, mimos, carinhos, conversa, passeios, trabalho, namoro, família. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus personagens homens levantavam, bocejavam, barbeavam, banhavam, vestiam, comiam, ouviam, riam, gritavam, falavam, cortavam, vendiam, dormiam, apalpavam, ironizavam, gargalhavam, esbofeteavam, beijavam, lavavam, palitavam, roncavam. Suas personagens mulheres sonhavam, suspiravam, beijavam, amavam, acordavam, cozinhavam, lavavam, serviam, concordavam, olhavam, sorriam, comiam, lavavam, caminhavam, feiravam, se matavam, se estressavam, envelheciam, se consumiam. A peixaria ladrilhava, reluzia, sangrava, tilintava, odorizava. O gato eriçava, curvava, arranhava, desprezava, miava, avisava, machucava. O cachorro brigava, brincava, rebolava, sujava, protegia. O bonde subia, apitava, ajuntava, acolhia, esfumaçava, oleava, encarecia, judiava, descia, era o que ele fazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As flores perfumavam o jardim de Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As historias levitavam a mente de Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A família era a vida de Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dava mimos quando ganhava carinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversava e passeava quando não trabalhava,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Namoro só com o João.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa era a vida de Maria...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-4121105737719031298?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/4121105737719031298/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/11/vida-de-maria.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/4121105737719031298'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/4121105737719031298'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/11/vida-de-maria.html' title='Vida de Maria'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-6487728819001811800</id><published>2009-09-14T07:29:00.000-07:00</published><updated>2009-09-14T07:30:15.031-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Nei Rafael Filho'/><title type='text'>James Joyce não mora mais aqui</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nei Rafael Filho&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Todas as antenas do país transmitiram a voz do Presidente. O sinal enviado às tvs era sonoro, sem os números da contagem regressiva. Na tela, apareceu o Alvorada, a bandeira. Uma voz solene anunciou: Vai falar Sua Excelência, o Presidente da República.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         De terno impecável e cabeça baixa, aos pigarros ajeitou a gravata. Falou de frente para a câmara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chegou a mim a confirmação de algo inédito, percebido há dias pela defesa civil. Essa notícia foi autorizada pelo Chefe de Estado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo tom da fala, o país silenciou para escutá-lo. De testa suada e franzida, o discurso continha subtextos. De olho na Tv, o barman parou de enxugar a louça. O chofer fechou a janela, colado no rádio. Na vizinhança, murmúrios anunciavam boatos de um disco voador. O barbeiro, de tesoura em riste, supôs um meteoro do tamanho do Maracanã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Li uma vez, faz tempo, numa revista de ciência. Uma pedra enorme vai se chocar na Terra. Já aconteceu antes e acabou com os dinossauros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             O Presidente prosseguiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             - Por favor, eu pediria para abrirem uma revista, um jornal, o que estiver à mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             Barney, o caçula dos Lima,  fez o que se pediu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             - Mamãe! Olha meu livro dos Três Porquinhos! As frases! Suimiram!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               No país e no mundo milhares de mães foram à mais próxima  estante de  livros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               As letras desapareciam do papel numa velocidade espantosa, como se  roídas por algum tipo de traça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  De novo o Presidente falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  -  Nossos computadores também foram atacados. Mantenham a calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É o fim do MSN! Isso não está acontecendo! – exclamaram aos gritos, desesperados, os adultos, os adolescentes e a segunda infância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Multidões foram às ruas, atirando para o meio fio, coleções, revistas, jornais. Bancas e livrarias, destruídas. Ao compulsar encadernações encontravam apenas fotos. O escrito ficou despido de qualquer impressão, das letras e dos números.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    Escolas pararam de funcionar. Faculdades interromperam seus bacharelados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    Noutro pronunciamento, a autoridade anunciou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    - O próximo passo será formar diretrizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   Mas ninguém prestou atenção. Corriam enlouquecidos, tropeçando em leptops abandonados pelo caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maneira de pensar e agir dos homens mudou. Surgiu um novo renascimento, o da memória. O ensino, da boca para o ouvido. As frases eram possíveis somente nos palcos e estúdios. Não escritas. Na tentativa de reescrevê-las no papel, ao se formar, duravam um ou dois segundos. Apenas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   - Saudades dos escritos – diziam em lamurias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   Ou com muito arrependimento:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    - Se voltar ao normal,  devorarei o “Ulysses” de James Joyce até o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A televisão, durante as 24 horas, reprisava maestros regendo sem a partitura e muitos shows, centenas talvez milhares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos espetáculos, um concurso de calouros, era o “De quem é a frase?“, com crianças aparecendo no palco vestindo roupas em forma de números ou letras. Em grupos, reuniam sílabas, palavras e sentenças. Atentas ao contra-regra exaltado e, a seu comando, eram substituídas por outras, como peças de dominó, sob a repetida ordem: “Mudemos o uniforme: e já!”. Elas teriam de dar lugar às outras recém uniformizadas como vírgulas e pontos de exclamação para o texto recitado do romance “O Legado de Humbold”, de Saul Bellow..&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-6487728819001811800?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/6487728819001811800/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/09/james-joyce-nao-mora-mais-aqui.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6487728819001811800'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6487728819001811800'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/09/james-joyce-nao-mora-mais-aqui.html' title='James Joyce não mora mais aqui'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-689375928760417233</id><published>2009-08-28T09:08:00.000-07:00</published><updated>2009-08-28T09:09:02.711-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vitória Leiria'/><title type='text'>Cadê  o riso</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Vitória Leiria&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Cadê o riso? Chorei.&lt;br /&gt;O muro retém a alegria.&lt;br /&gt;Os outros... esperam.&lt;br /&gt;Eu... empaco. &lt;br /&gt;Eu penso... choro.&lt;br /&gt;Lembro... penso.&lt;br /&gt;Espreguiço-me... lembro.&lt;br /&gt;Então... cadê a alegria?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-689375928760417233?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/689375928760417233/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/08/cade-o-riso.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/689375928760417233'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/689375928760417233'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/08/cade-o-riso.html' title='Cadê  o riso'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-2211102890520496820</id><published>2009-08-28T09:07:00.000-07:00</published><updated>2009-08-28T09:08:33.581-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vitória Leiria'/><title type='text'>Amor à vida</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vitória Leiria&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Abra os braços,&lt;br /&gt;Me acolha com carinho,&lt;br /&gt;Me diga que está tudo bem,&lt;br /&gt;Me diga que estás  aqui, &lt;br /&gt;Deixa eu sentir os raios de sol,&lt;br /&gt;Perceber que a vida é infinita,&lt;br /&gt;Dizer: amo, amo a vida, &lt;br /&gt;Deixe que a vida entre em você,&lt;br /&gt;Reaqueça e equilibre seu interior,&lt;br /&gt;Para que possas transmitir e compartilhar,&lt;br /&gt;O que de belo e profundo percebes, &lt;br /&gt;Deixe que a vida crie e acalente bons sentimentos,&lt;br /&gt;Feche a porta para as tempestades,&lt;br /&gt;Pise com cuidado o solo que sustenta teus pilares,&lt;br /&gt;E lembre-se que o mundo que habitas e te dá sustento,&lt;br /&gt;Será  o teu berço no futuro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-2211102890520496820?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/2211102890520496820/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/08/amor-vida.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2211102890520496820'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2211102890520496820'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/08/amor-vida.html' title='Amor à vida'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-2714692598131423038</id><published>2009-07-06T18:00:00.000-07:00</published><updated>2009-07-06T18:01:10.529-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Nei Rafael Filho'/><title type='text'>Papai casou com mamãe</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nei Rafael Filho&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;         Hortencio era casado com Cecília. Do casamento nasceram Paula e Ricardo. Hortencio trabalhava como consultor financeiro e Cecília representava uma empresa multinacional de purificadores de água. Por mais que se esforçasse, nos últimos anos Hortencio passou a ganhar salário menor ao de Cecília. Essa mudança não impedia a vida simples no lar, a educação dos filhos e o carinho. A mulher, no entanto, o traiu com o dentista, o Dr. Alexandre. O marido soube através do celular da esposa. A caixa de recados e as ligações eram espaços exclusivos de  comunicação íntima com o cirurgião maxilobucofacial. Por que   suspeitar da esposa?  Sua desconfiança aconteceu tão logo iniciado o tratamento dentário, e em razão do repentino silêncio  reinante em casa, semelhante ao das emboscadas em manobra militar. Foi a sensação de mal-estar, dentro de casa, percebida pelo marido traído. Ele recordou um domingo e o  ensinamento de seu pai, no Parque Saint’Hillaire,  um lugar de lazer situado em Viamão: o perigo potencial dominante na quietude tumular às margens de um rio. Sob o frescor da memória  o esposo magoado reconstruiu a cena, após  um churrasco familiar. O sr. Narciso e ele estavam agachados na frente do lago do parque para lavar a louça, enquanto sua mãe tirava um cochilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “Olha filho. Está tudo muito quieto” – alertou o pai, em postura vigilante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “Sim, pai” – respondeu o garoto, observando-o com os talheres  e em     mãos ensaboadas.  Ele saboreou aquele  momento escondido no tempo como se acabasse de acontecer, revivendo o olhar de   seu pai, olhos atentos, mirando   à outra margem do lago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “ Jamais esqueça Hortencio!  No exército a gente aprende que quando a área aquartelada  está muito quieta, isso  pode ser sinal de emboscada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          De volta à realidade, marido e mulher, seguiram em frente com seus afazeres profissionais e da lide doméstica. Ele a perdoou, evitou tocar no assunto e as crianças cresciam. Depois, numa festa oferecida em casa para alguns amigos e parentes da esposa, Hortencio se ausentou por uns trinta ou quarenta minutos. Foi ele o churrasqueiro, e após avisou da rápida ducha para almoçar. Mas a demora fez os convidados  perguntar por ele. Onde teria ido? Ao aparecer do andar superior, descendo os degraus  da escada de madeira, todas as pessoas à mesa e no meio da refeição tiveram uma surpresa.   Chocadas, assistiram o retorno  de seu anfitrião vestido com roupas de mulher, as roupas de Cecília e inclusive de salto alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fiquem à  vontade, continuem  almoçando, estejam tranqüilos – disse em voz pausada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como assim, ‘fiquem à vontade!?’ – indagou a anfitriã,  apavorada – Isso é alguma brincadeira, Hortencio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu cunhado, dois casais de amigo, e os filhos se puseram  a rir. Ele calmo e sereno sentou à mesa e comeu uma porção de salada e um pedaço de frango assado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxou conversa, falou no tempo, se ia chover como anunciado na Tv Com, e se o Grêmio se daria bem no Grenal da próxima quarta-feira. Servindo um copo de refrigerante diet, perguntou  sobre a nova escola de Valéria a filha do amigo Antenor. Antenor, era seu convidado  especial sentado à sua direita,   porque elegera-se  suplente a Vereador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Ao anoitecer, todos os convidados retornaram às suas casas. O casal  foi  descansar  nos aposentos. Cecília não dirigiu a voz ao marido. Ricardo, indignado, entrou sem bater para questionar se o seu pai dormiria  de calcinhas ou cuecas. E bateu em retirada aos gritos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu filho. Não vou deixar de ser o teu pai... -  atendeu evasivamente a crescente aflição do adolescente ainda atrás da porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Na manhã seguinte, Hortencio foi trabalhar. No escritório  todos repararam o homem vestido de mulher, usando uma peruca castanha, amarrada com um laço amarelo. O segurança pediu a identificação funcional para certificar-se se aquele era  mesmo o funcionário mais antigo da seção. O chefe, boquiaberto, pediu  uma conversa à porta fechada entre sisudos analistas aturdidos do surpreendente surrealismo. O chefe, enfático, chamou-lhe atenção:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-  Não sei qual é o motivo da brincadeira, Hortencio. É bom ir parando!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   O advertido com a mão à maçaneta,  a porta entre aberta, todos escutaram  a conversa.  Tranqüilo,  pediu para sentar e  um café, com pouco açúcar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Os dias sucederam as noites, semanas e meses, e o marido de Cecília permanecia vestindo as roupas da mulher. Ela protestou. Impaciente,  ameaçou autoritária:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vão dizer o quê? E as crianças? Como explicar na escola? Os vizinhos estão pensando que eu moro com uma mulher! E trate de comprar as tuas roupas! – berrou ao tomar de volta o sutiã de cetim presenteado no Dia dos Namorados do ano anterior.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Hortencio fez novas aquisições no Shopping. Trocou o guarda-roupa. Freqüentava o supermercado vestido de mulher. Estacionava no posto de combustível para comprar chiclete na delicatessem, dizendo bobagens e de brincadeiras com a menina do caixa, como sempre fazia, embora vestido de mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabe, filha. Chiclete é bom para tirar a papada. Estou horrível, não acha? Vou para  faca em breve! Quero tirar esse papo de pelicano! Por hora fico no chiclete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça, muito mirrada, usava lentes fundo de garrafa, sonhava ser modelo, fez questão de não  cobrar a guloseima.  Se aproximou do cliente travestido para dizer  com meiguice:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não liga Sr. Hortencio  - consolou Armínia,   a querida atendente das lentes grossas – As pessoas não entendem nossas crises. Vou apoiar o senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   À mesa, no jantar,  a família estava reunida. Hortencio vestia um tayeur lilás. Ricardo ficou de costas para o pai. A filha, Paula, de braços cruzados o observava com ar de respeito e dó. Cecília, mastigava silenciosamente. Ela, de pernas cruzadas, elegante, sorvia o suco de limão. Todos sem dizer uma palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Mas Hortencio arriscou quebrar a monotonia dos comensais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hoje tive um dia e tanto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Papai! Quando vai parar com essa palhaçada? – indagou Ricardo, aos protestos -   Sou teu único filho homem! E pré-vestibulando a uma vaga em Publicidade e Propaganda da Universidade Federal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Cecília pediu calma. Prometeu ter uma conversa com o marido e  tudo voltaria ao normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  No quarto dos esposos, ele a convidou para tomar banho juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Depois trocaram carinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Na consagração do amor conjugal, ela o abraçou com ternura. E o beijou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hortencio, – em voz maviosa com a qual um dia conquistou o futuro consorte – Eu serei promovida. Assumirei a divisão da L’Aqua Viva do Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parabéns, minha querida. Sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Na manhã seguinte o pai pediu para levar  as crianças adolescentes para a escola. Elas recusaram. Na ocasião estava  trajando um terninho de casemira salmon, um par de Germons e meia de nylon verde erva do campo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Ricardo saiu de casa explodindo. Paula gritou, finalmente, o engasgado há anos, a essência de um protesto pessoal. Desafiou não o pai, e sim o seu desconforto pessoal e detestável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você  não gosta de ser homem e pode se transformar em mulher! Mas eu tenho de suportar esse nome horrível, Paula!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Hortencio interpelou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um momento filha! Eu  não sou mulher. Eu sou homem! Estou tentando ver como as coisas de outro jeito. Vou experimentar, viver uma nova fase, entende?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Entende o quê?! Bobagem! Você engana direitinho! Minha amiga, a Sabrina, espalhou na escola que você é mais bonita que mamãe!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Ao escutar, de pronto se ergueu da cadeira para se olhar no espelho. Com um alfinete de marfim sintético espetava a peruca para dar volume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Filha, meu encanto – mirado-se no espelho - porque odeia o nome que te demos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Paula saiu da casa, chorando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou de ônibus! Me deixem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas que nome você gostaria, filha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Ao bater o portão,  na volta da esquina, gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Queria me chamar de Marilda! Queria poder escolher esse nome!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Na empresa onde o pai de Paula ainda exercia as atividades  de analista financeiro, pouco antes do coffebreak, o chefe tornou a  ameaçá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-  Olha, sei que não é fácil para ninguém. Mas se continuar com esse cacoete, essa loucura... vou ter de rebaixá-lo. Ou tomar medida pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Hortencio, tranqüilo  disse não se importar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Na acarpetada sala, o chefe, enfim, após obrigá-lo a assinar uma advertência, convidou-o para entrar, servindo-lhe café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Veja bem, analista Sênior! Você não tem ambição? Aqui tem tudo para  crescer! Uma promoção!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Rigorosamente vestido, perfumado, pernas depiladas e maquiagem perfeita, escutava o patrão com brilho nos olhos ressaltados. O  rimel valorizou   seus cílios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos receber dentro de alguns dias uma comissão japonesa. Vou ter de   dispensá-lo enquanto estiverem em nosso escritório. Esse povo é rigoroso quanto o papel desempenhado pelas pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      De volta ao lar, a família voltou  a se reunir à mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Ricardo foi o primeiro a falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mamãe  ficou importante, papai. Ela terá um chofer. Será a nova diretora da Aqua! Um chofer só para ela!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Paula, quieta, mal tocou no jantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Cecília, ofereceu uma taça de vinho ao marido. Era quinta-feira, e nesse dia, bebiam vinho. Para brindar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Hortencio, após um gole,   pediu emprestado o suéter azul turquesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Ricardo, com o sangue subindo,  socou à mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - Papai! Quando vai parar com isso? Quando? Que situação! Conheci uma garota. Queria trazê-la aqui em casa, apresentá-la... Como é que vai ser!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Cecília nada disse. Tinha o olhar inquisidor  para o marido. Ele,  imparcial, sereno. Experimentou filosofar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  - As pessoas não significam as roupas que usam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Pediu  licença e deixou a sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Numa noite de sábado Paula levou  Tarciso o namorado, até a porta da frente. O rapaz tomou um susto ao ser recepcionado. Ela avisou das últimas mudanças.  Hortencio o convidou para entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele é  meu pai, Tarciso. Papai casou com mamãe. Sou a filha dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      O rapaz, vacilou se entraria ou  não. Queria acreditar ser a situação uma brincadeira de mau gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Entra logo meu rapaz! –  insistiu em gestos airosos com a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula encarou o rapaz como se estivesse dizendo: “ Tudo isso que vê é uma prova de amor. Se me ama, entra e cumprimente meu pai.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      No próximo sábado  Ricardo trouxe a namorada Rosalva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ela entrou rindo, dando beijos, apertando as mãos de todos: “Tudo é cultura, uma questão de aceitação de rituais e Ricardo era muito certinho”. Expressou simpatia por Hortencio e contou a história de sua tia Eulália, rica e muito bem casada, um dia resolveu largar tudo porque estava apaixonada  por um caminhoneiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Jamais a perdoaram! Eu nem soube de nada, era um bebê na ocasião. Me contaram essa história assim como se vende o peixe. Eu nem sei dos detalhes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Cecília queria saber qual era a ligação entre Hortencio e a história da sua tia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não  é isso... – expplicou - É que as pessoas arrumam, fazem as coisas para serem imutáveis. O sr. Hortencio é assim, ou ficou desse jeito e ponto final! Minha tia preferiu as estradas a uma mansão com piscina!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      E desatou em gargalhadas. Aliás, isso contagiou a todos. Ricardo, tenso, riu. Questionou-a:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-  Como agiria se de repente    decidisse usar roupas de mulher?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Respondeu sem o menor esforço:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha, para satisfazer a pergunta, terei de ser honesta. Gosto de algumas roupas masculinas. Para mim, tudo bem. Se um dia o teu desejo for usar roupas femininas, é só usar. Use e abuse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A sonhada ascensão profissional de Cecília aconteceu. A nova Diretora realizou viagens internacionais e quando possível, o marido acompanhava.  Ele permaneceu como analista financeiro, sem promoção. Os filhos iniciaram   às faculdades. Paula foi morar com o namorado e Ricardo contemplado com um intercambio cultural. Cecília, rodeada de afazeres profissionais, no sossego do lar  tinha o notebook aberto, rodeada de relatórios, tabelas, gráficos e o celular.   Numa noite de inverno, de ventania gelada, pediu ao marido para usar suas  meias, “aquelas de lã, do tempo das roupas de homem”.  Todas as roupas do passado, as vestes de Hortencio,  ficaram guardadas. Macias, novas e cheirosas, vestiu as meias. Gostou muito. Na manhã seguinte, solicitou outra peça, o pulôver azul e a parte de baixo do abrigo, guarnecido numa caixa havia alguns anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       Na segunda-feira, pediu uma camisa de lã. Ninguém notaria  a roupa masculina  porque usaria por cima  uma blusa de tricô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        Na terça, calçou suas pantufas de lã, para apanhar o jornal no jardim. Para sair pela manhã, na quarta, de notebook e tudo,  experimentou a jaqueta de couro. Mas deixou-a de lado, para o dia seguinte.  Ao invés, solicitou  uma de suas camisas italianas listradas. A de listras verde.  E também uma gravata. A de seda sete fios. Tudo ele alcançou. Trajada, foi ao espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ninguém vai reparar, querido. Nós temos um manequim parecido. Que tal?  Suas roupas me assentam?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-2714692598131423038?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/2714692598131423038/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/07/papai-casou-com-mamae.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2714692598131423038'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2714692598131423038'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/07/papai-casou-com-mamae.html' title='Papai casou com mamãe'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-2780752898850912041</id><published>2009-07-05T15:49:00.001-07:00</published><updated>2009-07-05T15:49:38.242-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Léo Ferlauto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Minicontos'/><title type='text'>Abandono</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Léo Ferlauto&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Duas tigelas vazias.  Ao redor, um silêncio parado, desalentador, por vezes atravessado por  longínquos sons de rua. As imagens movendo-se com lentidão, e ele  perambulando entre elas, ansioso, desolado. Vez ou outra, um novo olhar  para aquela porta, ansiando pela volta dos afagos, que resultavam num  frisson ritmado, percutindo em pés de mesa e cadeiras, ou onde fosse.  Ainda uma vez, nada. Nem um movimento ou cheiro conhecido. Ali, parado  em frente à porta, uma tristeza quase humana resvala de seus olhos.  Volta a atravessar aqueles espaços vazios e vai para seu canto, para  seu cobertor com dobras e cheiros familiares. Antes, sacia a sede num  filete de água que escorrega pelo chão e aninha-se. Um ganido quase  como um choro de criança rompe o silêncio da casa há tanto tempo  vazia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-2780752898850912041?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/2780752898850912041/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/07/abandono.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2780752898850912041'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2780752898850912041'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/07/abandono.html' title='Abandono'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-5060828103234052885</id><published>2009-07-05T15:48:00.000-07:00</published><updated>2009-07-05T15:49:09.765-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Léo Ferlauto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Minicontos'/><title type='text'>Desilusão</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Léo Ferlauto&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Um jovem ET desembarca numa sala de família na hora da novela. Um casal discute asperamente. Duas crianças correm pra lá e pra cá. Uma berra algo, a outra faz careta e sai rindo. O ET fica tonto em meio ao ruído dos humanos e daquela antiga máquina de imagens, tudo em volume irritante. Esperava encontrar naquele velho planeta um clima bucólico, despoluído, mas aquela amostra...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sai à rua e esbarra num monte fedorento de lixo encimado pelo aviso: proibido jogar lixo. Logo topa com tiros e correrias em um prédio todo aço e vidros que lhe lembra, lembra o que mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Desanima e retorna ao seu mundo, em paz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-5060828103234052885?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/5060828103234052885/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/07/desilusao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5060828103234052885'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5060828103234052885'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/07/desilusao.html' title='Desilusão'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-3739806376761014052</id><published>2009-06-28T13:09:00.000-07:00</published><updated>2009-06-28T13:10:24.458-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Léo Ferlauto'/><title type='text'>A virada</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Léo Ferlauto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Ali estava desde sempre. Lugar confortável, tranqüilo. Sensação de nadar em águas tépidas, confusão e frio deixados fora. Escutava as batidas do coração saboreando o ritmo primal. Haveria som mais delicioso?De quando em quando escutava suaves canções vindas de algum lugar ali por perto provendo sensação de calma. Noutras ocasiões, vozes familiares inspirando ternuras. Dormia quando tinha sono. Sonhava belezas. Se alimentava sem dar chance à fome. Tudo arranjado de maneira harmônica, orgânica, simples. Espaço paradisíaco. Dificil acreditar haver mundo melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia, claro, dias de alvoroço que repercutiam por ali. Vinham de fora e apenas aguçavam curiosidades, sem mais. Estava num lugar seguro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas chegou aquele dia. Desde cedo a rotina modificou, divergiu. Aquela paz que parecia eterna, num repente sumiu. Pressas, movimentos inusitados, conversas ininteligíveis, vozes familiares e outras não. Gemidos? Rumores próximos, longínquos, um ar de ansiedade se insinuando, nervosismos desconhecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo sentiu-se como peixe fora d’água, e assustado gritou o mais estridente que pode, protestando contra aquela desordem violenta. O paraíso espatifado. Depois daquele dia, nunca mais foi o mesmo. Uma luminosidade intensa feriu seus olhos, seus ouvidos percebiam estrondos. Nascera, finalmente, para um mundo que ele jamais imaginara existir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-3739806376761014052?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/3739806376761014052/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/virada_28.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/3739806376761014052'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/3739806376761014052'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/virada_28.html' title='A virada'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-5660957926775646628</id><published>2009-06-28T13:08:00.000-07:00</published><updated>2009-06-28T13:09:30.895-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Adriana Duarte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Minicontos'/><title type='text'>Depois daquele dia nunca mais fui a mesma</title><content type='html'>&lt;span style=";font-family:Calibri;font-size:100%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Adriana Duarte&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Quando meus pais me contaram&lt;br /&gt;Ah! Meus medos abdicaram&lt;br /&gt;Meus lamenos se soterraram&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando meus pais me contaram&lt;br /&gt;Minhas alegrias desabrocharam&lt;br /&gt;Meus sentidos renasceram&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando meus pais me contaram&lt;br /&gt;que a  escuridão quase obscureceu minha claridade&lt;br /&gt;em pleno desabrochar da  vida,&lt;br /&gt;minhas esperanças se fortificaram.&lt;p&gt;&lt;span style=";font-family:Calibri;font-size:100%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-5660957926775646628?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/5660957926775646628/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/depois-daquele-dia-nunca-mais-fui-mesma.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5660957926775646628'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5660957926775646628'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/depois-daquele-dia-nunca-mais-fui-mesma.html' title='Depois daquele dia nunca mais fui a mesma'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-5990479501126287351</id><published>2009-06-25T06:43:00.000-07:00</published><updated>2009-06-25T06:44:22.381-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sara Cadore'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Minicontos'/><title type='text'>Sonha, Alice</title><content type='html'>&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Sara Cadore&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Era feliz como Alice. Em uma noite gelada de chocolates quentes, algo antes inofensivo encheu seus olhos de tanta angústia. Como se não existisse um braço amoroso, desatou a chorar. Teve uma saudade incontida do que nunca viveu. Doía-lhe a falta do amor, que entre todos, não vai ter.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Pensou no super-herói que nunca apareceu, nem nas embalagens dos cereais matinais. No mocinho desconhecido que não espantou seus monstros de estimação, moradores antigos do pé da cama. No galã com quem nunca vai viver final de novela.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Lembrou que não precisava de nada disso. Ela nunca foi de comer sucrilhos, nem alimentava assombrações e, muito menos, acompanhava folhetins. Por que se lamentar agora? Desligou a TV, beijou com paixão, vestiu seu melhor sorriso e voltou ao país das maravilhas.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-5990479501126287351?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/5990479501126287351/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/sonha-alice.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5990479501126287351'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5990479501126287351'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/sonha-alice.html' title='Sonha, Alice'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-4204086218125029107</id><published>2009-06-11T07:26:00.000-07:00</published><updated>2009-06-11T07:28:01.343-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vera Veríssimo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Minicontos'/><title type='text'>Planos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vera Veríssimo&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Ao comemorar a aprovação do Plano A, o plano B já  havia iniciado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-4204086218125029107?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/4204086218125029107/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/planos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/4204086218125029107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/4204086218125029107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/planos.html' title='Planos'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-2305668134673256298</id><published>2009-06-11T07:24:00.000-07:00</published><updated>2009-06-11T07:25:27.687-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vera Veríssimo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Minicontos'/><title type='text'>O passado</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Vera Veríssimo&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo que tu tens disto aqui, vais me  entender. Não é simples querer parar de pensar nisso. Ela era tudo o que eu  tinha de melhor e ali estava, naquela esquina movimentada, barulhenta, tentando  me dar desculpas pelo que eu tinha visto.Era sempre assim, ela me  sacaneava, dizia que era da minha cabeça,minha interpretação, me explicava,  me abraçava, e eu ia desculpando, uma vez atrás da outra. Mas cara, um caso com  um aluno meu.Não ri, isso é sério no meu meio..Sei, já ouviste de tudo neste  ninho de pilantras. Não estou ofendendo, até já somos amigos, maneira de falar.  O que dói mais? Como se mede dor? Agredir, perder a cabeça, matar quem eu amava,  suportar a ausência... Agora, condenado a ficar nesta prisão de  memórias  tanto tempo. O castigo é não parar de pensar nisso. Essa é a maior  sentença,  ficar a sós, e como única posse, o  passado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-2305668134673256298?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/2305668134673256298/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/o-passado.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2305668134673256298'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2305668134673256298'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/o-passado.html' title='O passado'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-6459886057336505809</id><published>2009-06-07T14:53:00.000-07:00</published><updated>2009-06-07T14:54:37.490-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônicas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Luis Henrique Reis Volkart'/><title type='text'>O prego</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;Luis Henrique reis Volkart&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Aqui estou eu dentro desta caixa enferrujada rodeado de ferramentas  velhas e sujas. Fui condenado a ter esta existência sem graça e cruel.  Nasci um prego. Sim, um simples prego. Não sou bonito esteticamente,  minha cabeça é desproporcional ao resto do corpo. É um pouco arredondada,  o que da a impressão de ser menor ainda. Sou sem graça, sem atrativos  e morrerei um dia cravado em um pedaço qualquer de madeira sem prévias  apresentações nem rodeios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vim de uma família nobre, não  sou feito de aço inoxidável como alguns de minha espécie. Sou resultado  da fusão de diversos materiais. Sucatas. Tenho vergonha de dizer. Estavam  em seus últimos dias, não tinham mais utilidade alguma na vida. Eram  materiais doentes, quebrados, amassados de segunda categoria, ou mais.  Sou um prego de tamanho médio, nunca irei crescer, é a vida, já me  conformei com isso. Vivo aqui sozinho, meus amigos já se foram todos,  nunca mais tive notícias de nenhum. Fico imaginando onde estarão,  como estão. Não consigo conversar com as ferramentas, são um grupo  fechado,  parece que elas falam um outro idioma que não consigo  entender, parecem  viver em um outro mundo. Eu não sou o único  prego desta caixa. Sou o único que está inteiro. Há outros esquecidos  lá no fundo. São pregos que retornaram após alguns anos de inteira  dedicação ao seu destino. Não gosto deles, são tortos, quebrados,  têm a cabeça deformada pelas marteladas que sofreram. Alguns voltaram  totalmente loucos. Costumam falar sozinhos, ninguém os entende. Outros  parecem que sofreram  lobotomia. Perderam totalmente a vontade  de viver, dizem ser em razão das marteladas. Eles ficam sonhando com  a fusão com outros materiais que culminará com o fim derradeiro. Para  completar, ainda tem aquela doença misteriosa e degenerativa sem cura.  Dizem que é contagiosa. Ela vai corroendo as entranhas da gente, a  pele fica de uma cor marrom meio amarelada, o corpo vai se deformando,  feridas em alto relevo brotam por todos os lados, o fim é doloroso  e certo, não tem volta.  Mantenho o máximo de distância deles,  prefiro ficar sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O destino de um prego  é levar pancadas violentas na cabeça até  penetrar em um pedaço de madeira, às vezes até concreto, o que é  bem pior. Há relatos de que alguns se quebraram ao meio ao tentar furar  o concreto, dizem que é uma cena horrível. O martelo é nosso pior  inimigo, é violento, não tem dó de nosso sofrimento, seu objetivo  sempre é a de atingir a cabeça com pancadas fortes e precisas. É  um ser repugnante, ás vezes gosta de dar repetidas pancadas até conseguir  terminar seu trabalho. Outras vezes desfere  apenas uma pancada  certeira e fatal. O que salva nossa existência é que nós pregos temos  um sonho. Sim, apesar de nosso destino já ter sido traçado, todos  temos o mesmo sonho. Alguns desviam o assunto dizendo que estão satisfeitos  em serem o que são, tudo mentira, pura hipocrisia. A grande verdade  é que, o  sonho de todos os pregos é ser um parafuso. É um sonho  impossível, mas nós sonhamos com isso cada minuto de nossas vidas.  Nutrimos dentro de nós emoções confusas, invejamos e admiramos ao  mesmo tempo os parafusos, eles são bonitos, charmosos, elegantes. Suas  curvas são perfeitas, calculadas milimetricamente por seu criador.  Elas proporcionam uma sensação de constante movimento aos seus corpos.  São robustos e fortes, não têm fraquezas, orgulham-se do que são.  Suas cabeças são achatadas proporcionando uma simetria invejável  em relação ao resto do corpo. O cabelo é sempre bem repartido ao  meio o que proporciona um ar de superioridade. Alguns ainda têm o cabelo  repartido em quatro partes bem calculadas, é o máximo da beleza estética.  Estão sempre em embalagens mais bonitas e ajeitadas, nós não, viemos  sempre em sacos plásticos espremidos um contra  os outros como  se alguém nos tivesse simplesmente jogado para dentro. Alguns tentam  fugir colocando os pezinhos para fora, tudo em vão, o sucesso é quase  impossível. Os parafusos não têm inimigos como nós, pelo contrário,  têm um aliado, a chave de fendas. O martelo nem chega perto deles.  A chave de fendas os trata sempre com carinho, não há violência alguma  em seu relacionamento. Seu encaixe é perfeito em suas cabeças, o movimento  é feito em pequenas voltas que lembra mais uma dança entre dois amantes  apaixonados. Quando estão penetrando na madeira, pequenos filetes serpenteiam  seus corpos. É uma união perfeita  que dura até completar sua  finalidade. Os parafusos desfrutam de mais uma vantagem, a vantagem  do reaproveitamento. Algumas vezes a chave de fenda os convida para  dançar mais uma vez, só que agora no sentido oposto. Dizem que dá  vontade de chorar de tanta emoção. Eles voltam intactos, prontos para  mais uma dança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para nós pregos é impossível lidar com o sentimento de inveja e admiração  ao mesmo tempo. Tenho que  confessar que isso me corrói por dentro,  acho que deve ser pior do que aquela doença misteriosa que ataca minha  espécie. Mas no fundo me conformo com a minha existência como prego,  não tem volta, a vida quis que fosse assim. Só desejo que quando chegar  minha hora que seja rápido, que venha com uma pancada só, violenta  e certeira.&lt;blockquote&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-6459886057336505809?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/6459886057336505809/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/o-prego.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6459886057336505809'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6459886057336505809'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/o-prego.html' title='O prego'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-181901982013551883</id><published>2009-06-07T14:51:00.000-07:00</published><updated>2009-06-07T14:53:28.184-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Luis Henrique Reis Volkart'/><title type='text'>O mendigo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-family: georgia;font-family:Times New Roman;font-size:100%;"  &gt;Luis Henrique Reis Volkart&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family: georgia;font-family:georgia;" &gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;                 Parado entre a porta e o corredor, Paulo olhou pela última vez para  dentro de seu apartamento. Respirou fundo, pensou um pouco e fechou  a porta. Com um olhar perdido desceu as escadas que davam até a rua.  Nas mãos, apenas uma sacola de plástico que não deixava mostrar seu  conteúdo. Lá fora, uma chuva fina caía sem dar tréguas. Já era  o meio da tarde de mais um domingo de julho. Para Paulo, esse seria  um domingo diferente. Alcançou a rua levando mais tempo do que costumava  levar. As calçadas estavam molhadas, uma leve brisa soprava alguns  pingos em seu rosto. Não estava muito frio, mas a temperatura dava  sinais de que iria baixar rapidamente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;                Paulo começou a caminhar em direção ao Parque Central. A distância  era de aproximadamente cinco quarteirões de seu apartamento. Em razão  da chuva, as ruas estavam praticamente desertas. Poucas pessoas se aventuravam  a estar fora de casa com aquele clima. Paulo caminhava sem muita pressa.  Os pensamentos vinham à cabeça como se fossem uma metralhadora disparando  sem parar. A vida desfilava em sua mente de forma aleatória. Cada vez  que sentia algum pensamento colocar em dúvida sua decisão, apertava  o saco plástico que estava embaixo de seu braço e caminhava com mais  determinação.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;                Após meia hora de caminhada, chegou ao Parque Central. O local estava  praticamente vazio. Paulo caminhou até o lago situado na ala sul. Aquele  seria um bom lugar. Chegando lá, sentou-se em um banco que lhe oferecia  uma visão privilegiada do lago. Alguns patos nadavam alheios a chuva  e ao frio que já havia aumentado. Colocou o saco plástico ao lado.  Fitou o horizonte com um olhar perdido e pensativo. Não, não queria  mais pensar, já havia decidido o que fazer. Pegou o saco e começou  a abri-lo. Foi quando apareceu alguém. A aparência não era muito  boa. As roupas eram gastas e encardidas. O cheiro exalado pelo homem  era terrível.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Olá, tem  horas amigo? – perguntou o sujeito com voz cordial. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;                Paulo não respondeu. Procurou ignorar. Pensou que talvez assim fosse  embora e não o incomodaria mais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Olá,   tem horas amigooooooo? – perguntou novamente o indivíduo em um tom  de voz mais alto e firme.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;                Vendo que aquela figura não iria embora, Paulo respondeu:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- É quatro  e meia. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Meu Deus,  como o tempo voa nessa época do ano – respondeu o intruso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- É! – murmurou  Paulo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Ah, você  também acha? Agente não tem tempo de fazer quase nada, quando vê,  o tempo passou. E este clima horrível, eu estou todo molhado, meus  ossos estão congelando - o sujeito falando e aproximando-se mais de  Paulo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;                Paulo olhou para ele de cima para baixo não entendendo o que aquele  moribundo poderia ter para fazer. Era um desocupado com certeza.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Se você  não se importa, eu gostaria de ficar sozinho – respondeu Paulo com  um tom de voz firme.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Ah, um solitário!  Eu percebi de primeira. Você sabia que a pior coisa para um solitário  é ficar só? A solidão vai destruindo aos poucos a pessoa. Você acha  que tá tudo bem e de repente bum, a depressão. Não precisa se preocupar  amigão,eu vou lhe fazer companhia – sentou-se o sujeito no banco  bem ao lado de Paulo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Olha, eu  já falei que gostaria de ficar só. Será que você poderia respeitar  meu desejo -Paulo encarando o intruso com a fisionomia fechada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Oi meu amigo,  fazendo sua corrida diária? – o homem gritando para uma pessoa que  passava correndo fazendo Cooper.. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;                O corredor apenas deu uma leve virada com a cabeça para ver quem estava  lhe chamando. Sem tomar conhecimento, continuou sua corrida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Parece que  ele não te conhece cara – observou Paulo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Eu também  não conheço aquele sujeito. Mas é sempre bom fazer novos amigos aqui  pela vizinhança – respondeu o indivíduo com um sorriso de satisfação.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;                Paulo começou a ficar nervoso com aquela figura atípica ao seu lado.  Seu plano havia se desenrolado tão bem até o momento. Aquele lugar,  aquele dia já haviam sido escolhidos há meses. Ele teria que dar um  ultimato ao intruso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Vou pedir  mais uma vez.Você poderia me deixar sozinho agora! Tudo o que eu quero  é um pouco de privacidade - Paulo encarando o homem e empurrando-o  com o braço.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Ei, calma  aí amigo, sem violência! Eu estou aqui para lhe fazer companhia. Um  amigo não briga com o outro. Vou lhe dar um pouco de privacidade –  o sujeito apenas virou o corpo um pouco para o lado mas continuava observando  Paulo com o canto dos olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Só me faltava  essa – Paulo falando alto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Qual seu  nome amigão do peito?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Não te interessa!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Muito prazer,  meu é John Wayne – o homem com um sorriso largo no rosto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Ah é! Onde  está o cavalo John?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Meu Deus,  tava aqui agora mesmo. Horse, horse, onde você está? – o sujeito  gritando e procurando algo ao redor. – Não dá mais para confiar  nesses cavalos hoje em dia. É só alguém vir e oferecer um pouquinho  de grama e eles se mandam. Ainda dizem que são os melhores amigos do  homem!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Não seriam.  Deixa pra lá – Paulo com a fisionomia fechada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;                Paulo perdeu a paciência. Colocou a mão na sacola e puxou um trinta  e oito niquelado. Já que aquela figura não saia dali, resolveu continuar  seu plano assim mesmo. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Ó meu Deus,  o que você vai fazer com esta arma! Por favor, não me mate! Eu tenho  mulher, filhos e uma cadelinha manca que está esperando eu voltar para  casa para alimentá-la – o sujeito apavorado pulando para fora do  banco.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Eu não  vou te matar seu imbecil! Você não significa nada para mim. Eu vou  é me matar. Vou acabar com esta minha vida medíocre. Vê se me deixa  em paz agora – gritou Paulo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Ah, ainda  bem. Que alívio amigo, pensei que você ia enfiar uma bala na minha  cabeça. Toma cuidado da próxima vez, você pode matar alguém do coração  desse jeito - O homem falando  com  aliviado.  – Mas  por que você quer se matar! Sua vida não está boa?  Sua mulher  te traiu com seu melhor amigo? Perdeu tudo, está arruinado financeiramente?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- O que você  é por acaso, um psicólogo? Meus problemas são particulares. Deixa  eu ficar  em paz. Vai cuidar da sua mulher, de seus filhos e de  sua cadelinha manca - Paulo com um ar pensativo quase desanimado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Ah não,  era tudo mentira. Sabe como é, um homem em pânico é capaz de inventar  qualquer coisa. – o sujeito rindo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Idiota !  – observou Paulo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Não de  tanto valor pra vagabunda ordinária. Logo ela vai se arrepender e irá  voltar pra você - o indivíduo falando.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Ei, olha  como fala da minha esposa. Ela me traiu mas eu ainda a amo –argumentou  Paulo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Eu sei como  é. O homem arruinado financeiramente, traído no amor, ainda tenta  se prender a um último suspiro de esperança. Depois ela volta pra  casa arrependida. O imbecil aceita mentindo para si mesmo que é por  causa dos filhos. Finge não notar nada quando passa e os vizinhos ficam  comentando – o intruso falando em tom filosófico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - O que você  sabe sobre a vida. Você não passa de um pobre coitado que vive pelas  ruas pedindo esmolas. Dorme ao relento. Fede como um animal. Suas roupas  são uns trapos tão sujos que chegam a ser lustrosos. Faz quanto tempo  que você não lava o cabelo. E banho? Sabe o que é isso? Você é  o que a sociedade tem de mais repugnante - Paulo em um tom de voz ameaçador.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Puxa amigo,  você sabe realmente humilhar uma pessoa. Ta se sentindo melhor assim?  Eu não fui minha vida inteira mendigo. Eu trabalhava, tinha uma casa.  Tudo mudou só por causa das vozes que eu comecei a ouvir. Elas me perseguem  por todos os lugares – o mendigo com um ar triste e melancólico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Ah, eu sei.  A velha história da voz boa e da voz má. Do tira bom e do tira mau.  – observou Paulo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Tá se achando  muito esperto, um gênio, não é? Fica sabendo que não tem essa história  de voz boa e voz má. As duas vozes que escuto são bem más. Uma vez  eu discuti com meu chefe e uma das vozes mandou eu dar um soco na cara  dele. A outra mandou eu arrebentar a cabeça dele com uma cadeira. Eu  acabei fazendo as duas coisas pra não cria  problemas entre elas.  – o mendigo com cara de satisfação.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Você é  louco – observou Paulo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Como você  descobriu, quem lhe contou, era meu segredo particular! – o homem  preocupado. – Por isso que não dá pra contar nada pra ninguém.  Eu prefiro muito mais conversar com as pombas. Evito dialogar com os  patos, eles parecem que estão sempre rindo de nós. As pombas são  diferentes. É só jogar migalhas de pão que elas ficam ao seu redor  por horas conversando. O problema é que eu não entendo nada do que  elas falam. Mesmo assim eu prefiro conversar com as brancas. As pretas  são um mau presságio, não gosto delas, nem de comê-las.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Você já  falou bastante. Será que agora eu posso ficar sozinho? – Paulo falando  desanimado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Não, não,  eu não posso perder esse espetáculo. Eu quero ver você se matar.  Daí eu chamo a polícia e eles me levam até a delegacia pra contar  o que aconteceu. Posso tomar um bom café com os policiais e ainda comer  um sanduíche. E enquanto eles não tiverem olhando, encho os bolsos  com o que conseguir pegar. Ah, você me dá seus tênis? Tire-os antes  de se matar, pode manchar de sangue e não sair mais – o mendigo fazendo  cara de esperto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Quem disse  que eu quero platéia – Paulo indignado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Eu conheço  seu tipo. Já vi vários por aqui. Quem quer se matar não vem pra um  lugar público. Por que não se matou em casa? Tinha medo que seu corpo  só fosse achado dias depois quando os vizinhos não agüentassem mais  o fedor de podre? – o mendigo em tom autoritário.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Eu vim para  cá pra ter paz em meus momentos finais. Não vou deixar um lunático  me atrapalhar – observou Paulo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Olha amigo,  eu posso ser louco, mas eu nunca vim da lua. Não que eu saiba! E se  o parque tivesse cheio? Você ia dar um tiro na sua cabeça na frente  de todo mundo? Eu acho que você não passa de um grande covarde, uma  cacaca de gente. Seja homem, tenha caráter. Lute pela sua vida. Conquiste  novamente o que perdeu. Uma bala na cabeça não resolverá seus problemas.  E caso o tiro não lhe matar e você ficar com problemas cerebrais que  o impeçam de tentar novamente? Eu não irei cuidar de você. Eu não  sou tão amigo assim pra ficar trocando as fraldas geriátricas –  o mendigo gritando com Paulo. - Olhe para mim. Eu não tenho nada e  apesar disso não fico pensando em me matar. Busque forças dentro de  você para resolver qualquer problema que venha a surgir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- É, você  tem razão. Sabe que no fundo você parece ser uma boa pessoa. Você  até que tem bons pensamentos – Paulo olhando para o mendigo com afeição.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Ah, não  são meus. Eu li num livro que estava no lixo. Arranquei a página e  tentei decorar por mais de um ano, eu acho. Mas eu sei que sou uma boa  pessoa.  Ás vezes eu penso que meu destino foi viver nesse parque  pra ajudar às pessoas – o mendigo falando e observando o horizonte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Sabe que  eu estou com uma fome danada. Você não quer ir até lá em casa e  tomar um café, comer alguma coisa? Lá nós podemos conversar mais  – Paulo levantando do banco.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  align="justify" style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Já era  hora amigo. Pensei que você não ia me convidar nunca, eu estou morrendo  de fome. Eu quero comer aquele bolo de laranja que vendem na confeitaria  da esquina. Ah, eu só tomo café com leite desnatado – o mendigo  colocando o braço no ombro de Paulo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p align="justify"&gt;&lt;span style=";font-family:Georgia;font-size:100%;"  &gt;                Os dois saíram caminhando juntos. O mendigo havia proporcionado a Paulo  uma nova chance em sua vida.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-181901982013551883?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/181901982013551883/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/o-mendigo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/181901982013551883'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/181901982013551883'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/o-mendigo.html' title='O mendigo'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-2966715547629670709</id><published>2009-06-07T14:49:00.000-07:00</published><updated>2009-06-07T14:51:07.948-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Evelena Boening'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônicas'/><title type='text'>Carta adolescente</title><content type='html'>&lt;p style="text-align: right;font-family:georgia;" &gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;Evelena Boening&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;Rascunho de carta  de adolescente  para a sua amada, na qual ele risca o que a timidez o impede de expor&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Marcela:&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;     &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Ontem,   eu vi que tu andas muito bem de skate. Aliás, tu também és boa nos  desenhos.  &lt;s&gt;&lt;strike&gt;Na aula de artes,  posso sentar do teu  lado? Acho que vai me dar sorte. &lt;/strike&gt;&lt;/s&gt;  A professora  devia ter te dado 10 pelo trabalho  de ontem. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;     &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;s&gt;&lt;strike&gt;Fico  muito contente quando estamos juntos no barzinho.&lt;/strike&gt;&lt;/s&gt;   Descobri que, aqueles doces que tu gostas,  são mesmo  muito bons. &lt;s&gt;&lt;strike&gt; Ontem eles estavam em falta e me lembrei de ti.&lt;/strike&gt;&lt;/s&gt;  Na  festa do meu aniversário vou comprar um monte. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;     &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;O  Truque tá meio doente. Vou levar  ele no veterinário.  &lt;s&gt;&lt;strike&gt; Será que podias ir comigo? Contigo ele fica mais quietinho. Acho que  ele gosta de ti.&lt;/strike&gt;&lt;/s&gt; Tu me emprestas  a gaiola  de  carregar cachorro? A minha quebrou.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Rodrigo&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-2966715547629670709?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/2966715547629670709/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/carta-adolescente.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2966715547629670709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/2966715547629670709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/carta-adolescente.html' title='Carta adolescente'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-126869590819735640</id><published>2009-06-07T14:47:00.000-07:00</published><updated>2009-06-07T14:48:50.258-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Evelena Boening'/><title type='text'>Campeiro</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Evelena Boening&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Frio.  O minuano mandava. Em cima do cavalo, debaixo do poncho grande, grosso,  sem remendos, ia sorrindo e fumando um  cigarrinho de palha.   Fumo do melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na  beira dum capão, parou, amarrou o cavalo. Bicho bom não pode ficar  solto por aí. Entrou no matinho e cuidou pro xixi não sujar as botas  já engraxadas para manter o brilho do couro. Aproveitou a parada para  tomar um gole de pinga, daquela quase azul de tão boa. Montou, cuidando  para também proteger o animal com o poncho. Confortável, continuou  a viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas  semanas antes,  ele levara um baita susto. Aquele cadáver não  estava nos seus planos. Aliás, não havia cadáver nos seus planos.  Tinha medo de assombração e defunto, como todo mundo sabe, dá fantasma.  Achou o corpo perto dum riacho. Não viu sangue. Pelo jeito como estava,  parecia que sofrera um ataque e caíra do cavalo, que pastava por ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No  falecido, uma coisa chamou-lhe a atenção: o revólver. Um .38 de dez  balas, lindo, brilhante, grande, poderoso, caro. Antes de chegar mais  perto, ele rezou um Padre Nosso e uma Ave Maria. Depois, com muito cuidado,  pra não alertar a alma do finado, retirou a guaiaca com a arma, assoprou  pra limpar e colocou na cintura. Tinha dinheiro. Buscou a montaria do  morto, examinou a mala de garupa e gostou: roupa boa, munição, faca  de prata. Pegou suas coisas menos velhas e as ajeitou no cavalo .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazia  tempo que ele não sabia o que era casa, comida na mesa, cama fixa,  trabalho garantido. Conhecia muito índio que levava um vidão com roupa,  cavalo, churrasco, mulher, tudo de primeira, pagando pouco e até mesmo  não pagando. A diferença estava na arma que agora ele também tinha  e podia usar pra demonstrar como ele merecia ter tudo o que desejasse,  pelo preço que estipulasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com  o matungo a cabresto, ele e a sua nova-vida montaram no cavalo dos indiferentes  restos mortais perto do riacho.&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style=";font-family:Baskerville;font-size:130%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-126869590819735640?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/126869590819735640/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/campeiro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/126869590819735640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/126869590819735640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/campeiro.html' title='Campeiro'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-6123465632354506780</id><published>2009-06-02T07:05:00.000-07:00</published><updated>2009-06-07T14:47:51.806-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Evelena Boening'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Minicontos'/><title type='text'>Lendo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Evelena Boening&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Office Boy  gostava de ler.  Quando podia, sentava quietinho e abria um livro emprestado da biblioteca  da escola. Chefe implicava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num  texto de aventuras na mata brasileira, o índio explicou pro branco:  “I-panema quer dizer água ruim.”. Páragrafos depois, enfrentando   perigos, Office Boy ouve o grito do Chefe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Larga  esta coisa e leva este pacote pra expedição.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Office  Boy pensou, quase resmungou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Chefe-panema.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podia  ter resmungado. Chefe não lê, não ia entender mesmo.&lt;p&gt;&lt;span style=";font-family:Baskerville;font-size:130%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-6123465632354506780?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/6123465632354506780/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/lendo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6123465632354506780'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6123465632354506780'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/06/lendo.html' title='Lendo'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-4507370318344307594</id><published>2009-05-21T15:38:00.000-07:00</published><updated>2009-05-21T15:39:11.469-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Nei Rafael Filho'/><title type='text'>À procura de MR</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nei Rafael Filho&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A agência bancária foi aberta. Passaram da porta giratório, adentrando o caixa três homens. Todos com o mesmo rosto. Um rendeu o guarda, os demais, extremamente precisos, trataram de fazer a limpa na boca dos caixas.  Agiram com tanta precisão! A grande conquista é tornar fácil uma realização difícil. Tudo é calculado. O erro é submetido à prova de acerto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-  Mais depressa  guarda! Ninguém  está afim de pegar cana! –  gritou o integrante mais alto do trio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era para o segurança desligar o sinal de circuito de TV. O aparelho teria de operar retransmitindo a gravação do dia anterior para a central de segurança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No holl da agência, de subido e interrompendo os atos, entrou a idosa corcunda, pedindo ajuda para mexer no computador porque eracega de um olho. Ameaçava ir ao PROCON, aturdindo a estagiária na máquina de atendimento eletrônico caso não conseguisse sacar o benefício do INSS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sei que é pouco! Mas é meu dinheiro! O governo rouba e nos dá isso para passar o mês! – gritava ao pé do ouvido da atendente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça disse ser impossível atendê-la, o banco não era conveniado àquela autarquia, o Instituto Nacional da Seguridade Social. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas isso é loucura! O que estão pensando! Trouxe até o cartão do IENEPEÉSSI ! Tenho cinco gatos pra dar comida! Vou chamar a imprensa!  - berrava, batendo com o guarda-chuva na mesa de centro usada pelos clientes para escrever nos envelopes “pagamentos” ou “depósitos” para logo após enfiar para dentro das automáticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    De volta ao caixa, os três rapazes usando máscara   “Cristo Pop” do filme “Dogma” retiraram de dentro das sacolas destinadas ao dinheiro roubado vários objetos de borracha em forma de salsicha.  Puxaram o lacre e os artefatos começaram a inflar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   - São perfeitos, nem dá para acreditar! Se parecem com gente de verdade! – comentou o de  menor estatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em segundos o local se encheu de bonecos infláveis em posição erguida, confundido a cena do local. Os três homens deixaram a agência, educadamente, agradecendo a presteza do gerente, deixando sobre a mesa de trabalho  uma caixa de Ferrero Rocher. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Saíram os quatro, um a um, sem poupar maneios e trejeitos. Eram bons intérpretes deles mesmos. O quarteto, os três e a velhinha. No carro, pilotado por um homem de feições sulcadas, e na ocasião estava sisudo ao volante, partiram sem alarde, em meios aos tonitruante ameaçador  zunido das sirenes da polícia ativada. Na fuga, permaneceram calmos, com o rosto desfeito das máscaras, e a velhinha,  tirando a peruca, jogou a cabeleira para trás, revelando  uma mulher de  escandalosa beleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Ao chegarem em casa, refúgio seguro, os quatro puseram as sacolas dentro de uma geladeira com design antigo. Esse  tipo de desenho industrial das geladeiras antigas, tipo Gelomatic dos anos 1960,  hoje recebe a classificação de “design humilde”.  Desativada, verde, lascada, tinha na parte superior não um pingüim, mas um ganso, que como os pingüins de geladeira, era de porcelana. Na sala de estar permaneceram silenciosos enquanto aguardavam as primeiras decisões do  “vidente”, o motorista das feições amargas. Era para escolherem o destino do dinheiro. Ele sugeriu quatro opções. Ao anunciá-las, o olhar impunha respeito e silêncio absoluto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  A primeira opção: depositar o dinheiro numa conta bancária da rede MacDonald’s. Uma piada. O grupo votou “não”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   A outra opção: despejar o valor no ofertório da Igreja Universal. Dois milhões de reais. O grupo pensou uns minutos, pediram mais cinco para questionar os prós e os contras. Votaram “não”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Logo depois, a terceira opção: destinar o valor total do saque para “uma associação de bairro”, “de preferência a mais perigosa das vilas abandonadas, esses currais  eleitoreiros da cidade”. Nem pensar! O suado dinheiro  desapareceria num “zás-trás”. Seria como o boi jogado no poço das piranhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   A mulher pediu licença para falar. Sugeriu que talvez fosse melhor, ensinar o uso contábil e seguro do dinheiro e observar a formação da riqueza. Os homens se olharam em admiração. Ela prosseguiu o discurso, justificando o perigo  que é despejar o dinheiro aos líderes comunitários. Enriquecer do nada os desafortunados é premiar o mais perverso dos vícios de nossa cultura: a vadiagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       No dia seguinte, depois de uma excelente noite de sono, o Vidente reuniu outra vez o grupo em volta da mesa do café da manhã. Mandou esparramar feijões sobre a mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        Síria, a mulher linda, acompanhou as mãos do chefe tratando de espalhar em perfeitos movimentos os grãos de feijão numa indestrutível tranqüilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        Sem muita espera, o Vidente de improviso passou a justificar  seu apelido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vejo o futuro! – alertou com a voz grave - Minhas  mãos vêem e cruzam  pedras do caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      O grupo, em  atenção, esperava a quarta hipótese do destino da fortuna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Iremos adotar uma criança. Vamos adotar.  Deverá ser uma menina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Síria deu um salto. Isto não está certo, combinamos permanecer em cinco e assim deverá permanecer. Depois falou Sêneca, o pensador do quinteto. Falou Chico Harpo, o hábil e opinou, enfim,  Peter  O’tool, o mais alto e bonito dos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vocês! Quietos! Não brinquem com o destino! É uma força indomável! – asseverou  o prestidigitador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Síria começou a chorar. O Vidente lembrou-a de sua condição estéril. Refrescou a memória dos demais: Chico Harpo, queria ser médico. O’toll, escritor e Sêneca almejava reger as grandes orquestras. A mulher, embora fosse linda, com rancor saiu  despejando palavras ácidas para cima do Vidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela interpelou esbravejando: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você se acha o melhor! Consegue ver o futuro e planeja nossos destinos. Então responda: se nós quatro aqui somos uma quadrilha de frustrados, se você sabe da nossa dor, diga quem é você!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num silêncio tumular, ele fez uma volta em torno da mesa. Com o olhar lânguido e  voz firme ao falar,   afinal respondeu: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E só. Foi dito deste modo,  para compreender tão somente.  O inverno se aproximava.  Planejaram uma nova investida na riqueza de terceiros.  O próximo ataque seria uma espécie de “tour de force” dos golpes já realizados algum dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A angústia do grupo era menos pontuada  pela pressão das atividades do ofício de roubar e,  cada vez mais inquinadas para o risco, porque afinal,  o viés de toda aquela ansiedade significava   terem de se superar a cada novo empreendimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chico Harpo um dia perguntou se seriam pegos. Se algum dia iriam “cair”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem toda pergunta o Vidente respondia. Mas deixava por escrito a resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa manhã iluminada, Síria ao partir ao meio um suculento melão, reparou um papel dobrado entre as sementes no interior da fruta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “Jamais cairão, desde que não queiram a riqueza para si.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Síria e O’tool se gostavam. Sêneca e Síria se desejavam. Síria e Chico Harpo se amavam. Ela era a mulher de três. Eles  a tratavam como única alternativa para superar o vazio permanente nas mulheres belas, sempre invertendo as coisas, confundindo, mas  dispostas ao sacrifício por uma causa. Síria, no pacto selado, era a única mulher do mundo. O Vidente jamais tocou em mulher. E o quinteto jamais se ofendiam. Ela era dos três homens. Organizava os mapas e os roteiros de estudos além de competir-lhe elevar os ânimos, encorajar e satisfazer suas latentes desejos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após um jantar esplêndido, o mentor do grupo anunciou a ordem para o dia seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está se aproximando a hora  de irem à procura da bebê menina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grupo obedeceu.  No final de uma tarde, quase noite, Síria chegou carregando nos braços uma menina de alguns meses enrolada em lençóis e cobertores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O nome será escolhido pelo Vidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não se pronunciou. Foram todos dormir. Chico Harpo, o hábil, cuidou dos papeis e das economias para a educação da filha. A menina era  chamada de  “filha”. Dormiram os três homens com Síria. Um a um. Depois à sós, a mulher foi alimentar a pequena. Cuidou do sono, do conforto, deu carinho ao bebê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual o nome, Vidente? Qual é o nome da nossa filha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele advertiu:  era cedo para esta preocupação. Quando ela foi grande o suficiente para compreender as coisas, então ela escolherá o próprio nome. Por enquanto, foi ordenou ao quarteto estudarem informática, lógica e dois idiomas, o inglês e o mandarim, a língua dos chineses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estes estudos eram necessários para invadir senhas e penetrar nos segredos de estado. Fizeram isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprenderam a manejar segredos de governo, desativando bombas, inutilizando ogivas e ordenaram o mundo cuidar da população, da água e das imagens em permanente feiúra. Nosso mundo tem de ser bonito com é a face de Síria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto ela ficou  mais velha, porém aprendeu a conservar a beleza, oferecendo generosas   explicações sobre os fatos da vida para a pequena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual dos quatro tios será o meu pai? – indagava a filha com uma lágrima na voz. Mamãe Síria ofereceu escolha livre. Mas o Vidente disse “não”. Ele não poderia ser o pai. De jeito algum. Esbravejava conceitos metafísicos da existência, como por exemplo de ele “não possuir o cheiro da  humanidade”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a menina crescia e tudo em permanente movimento no universo, outro  serviço apareceu. Os quatro ganharam a missão de ingressar no Congresso. Era para  dar fim em sete políticos. Depois, mais sete. E, mais outros sete. Aí parariam. A missão estaria concluída. Agiram e fizeram o serviço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imprensa, chocada, não soube  informar as mortes e os desaparecimentos para o delírio da comoção nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vidente! – gritou O’toll de seu quarto, visivelmente embriagado, numa noite tempestuosa - Nossas reservas! Diga-nos! Nossa fortuna! Quando iremos usá-la? Estamos envelhecendo e nem aproveitamos a vida ainda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem obter resposta, o trio masculino foi surpreendido por bilhetes  encontrados dentro do cano de suas meias penduradas no varal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles escritos diziam de tudo. O importante foi a despedida de seu líder. Ele partiu para um lugar desconhecido, Xanadu. O grupo teria de se desfazer. Cada um tomaria rumo próprio, ou nem isso fariam. A menina, no entanto, seria entregue à adoção do Estado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Síria, naquela ocasião soube manter a serenidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos fazer o seguinte. A menina ficará conosco. Eu me proponho a casar com um de vocês.  Mas permaneceremos os quatro, juntos.  E, seremos  em cinco,  com a menina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então foram ver a menina. Não estava no quarto. Partiu com o Vidente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas ele falou em adoção do Estado. Vamos raciocinar! O que aconteceu? – indagou Harpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Síria ficou num pavor sem conseguir para manter a serenidade. O desespero  adentrou suas entranhas, músculos, nervos, se situou em pedaços, e era a  serva dos três homens, “os três desconjuntados”, como gostava de afirmar, mas isso não bastava!  Naquele momento de extremo pavor não parou de  repetir: “Quero minha filha de volta”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta ao ponto de origem os quatro cuidaram estabelecer a ordem das coisas ditas pelo chefe. Órfãos, foram à geladeira da fortuna e a perceberam vazia. Ele partiu com a fortuna de anos! E levou a menina! – exclamaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Síria, com o rosto amassado de tanto chorar, gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fomos abandonados! Abandonados e agora sem recursos! Sêneca!, gritou.Você é o pensador, ache um jeito! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte se separaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem tão jovens, nem tão idosos, tinham com certeza força nas pernas. Peter O’toll foi atrás de seu sonho. Sêneca  fez algo parecido. Chico Harpo e Síria decidiram procurar   um cartório para oficializar seu casamento. Ele cuidou da fertilidade da mulher. O marido explicou sobre as terras coberta de sal na Bolívia. Ainda assim, em solo salino, nascem plantas arbustivas no lugar.   Ela cuidou de tudo  para dar  coragem e inspiração ao homem escolhido, ajudando-o  nas artes da cura, seu esposo e amante eterno, agora  médico.  De algum modo particular, genuíno e bem acabado, todos os quatro  souberam remover os pavores e aflições do mundo. Ajudar as pessoas, e “diluir o veneno espalhado desde tempos imemoriais”, como ensinou o Vidente, na época dos primeiros trabalhos. É possível estar enganado, mas o último gesto praticado pelos intrépidos destituídos da fortuna e da menina adotada, embora nem tão ousado, verdade seja dita, fosse decidir ir ao encontro, ainda que tardio, da trilha do paraíso deixada pelo  mentor de todos aqueles anos. A escolha de seguir em frente à procura de Mister  Xanadú reinventou a própria sorte do quarteto. Tudo recomeçou dentro denma pizzaria do Bairro Menino Deus. Síria chamou a atenção para  o pizzaiollo, alto, elegante, e mesmo no meio de tanta farinha solta no ar, permanecia limpo e sereno como um monge. Discretamente,os quatro  trocaram de mesa duas vezes, confundindo o garçom, um jovem educado, para reunirem-se muito próximo  ao forno à lenha. Era ele, o guia. Sêneca chorou. O’tool riu. Síria cruzou os braços e Harpo  fez que não viu. Perguntaram  pelas coisas, como iam as coisas, onde estava a menina, queriam muito vê-la, tocá-la. O Vidente  puxou as pizzas para o lado menos quente do forno. Justificou suas artes, para evitar a massa da pizza fora do ponto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Usamos a melhor lenha. Verdade. O segredo é a fonte do calor – disse com a voz  firme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Síria foi direta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde ela está? Que nome você deu a ela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os amigos tentaram acalmá-la. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio estabelecido entre os cinco reuniu a própria idéia da forma de final feliz da história dos cinco, dos quatro, dos três, dos dois, de um só que eram cinco ao mesmo tempo, eles, o quinteto, inteligentes, audaciosos, românticos e proibidos ao senso comum, às legislações e aos bons costumes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não os deixarei sem respostas – assegurou o mentor vidente – ela está bem. Cresceu. Está linda. Só estou aguardando mais maturidade, mais crescimento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então? O que pretende? – indagou O’Tool? E, os demais, fizeram a mesma pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Vidente riu. Disse que não era o que estavam pensando, ou o que poderiam estar deduzindo. Jamais tocaria na moça. Jamais tocaria em mulher alguma!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou educá-la, apenas. E me retirar. É só. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sêneca o chamou de arrogante. Queriam saber para onde. Harpo, o lógico, costumava dispor das palavras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Retirar lembra retiro.Ir para algum retiro. O senhor vai para algum retiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou embora e serei esquecido. Vocês irão se separar. Aliás, já estão assim. Desde o casamento de Síria com o médico... bem, vocês de modo algum são os mesmos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra vez o silêncio rondou o quinteto. Ele, o guia, falava movimentando com a pá de madeira os discos de massa recheados de mussarela, tomates e pescados, entre achas de lenha em brasa e paredes de tijolo  refratário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então deixe a menina conosco – clamou Síria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E  tratou de respondeu de imediato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vocês ficarão com ela. Mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- ... terão de explicar o que fizeram ao longo de todos esses anos... os seqüestros de milionários traficantes, a morte de políticos corruptos, os assaltos aos bancos fraudulentos, e toda aquelas vezes que entraram nos computadores dos governos para esclarecer desvios de verbas e compra de campanhas. Vão dizer sim. Tudo. Tudo! – repetiu com gravidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas com que finalidade! Como iremos fazer isso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Façam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fizeram. Cautelosa e graciosamente. Contaram suas histórias fantásticas para diversos jornalistas. Deixaram as provas. Jamais os rostos, fotos com os rostos, ou os nomes verdadeiros ( em segredo, o Harpo, na verdade se chama Antônio Casemiro ). Foi o modo que encontraram, foi sugestão de Sêneca. Alguém há de ler e levar a sério. Talvez anônimos errantes venham a formar no futuro um novo quinteto, ou quarteto. Talvez a menina viesse a se tornar a nova guardiã, a nova Vidente – pelo menos, tinham algo em comum, ele e ela não tem um nome! Tudo é possível em nome da diluição do veneno milenar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-4507370318344307594?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/4507370318344307594/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/procura-de-mr.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/4507370318344307594'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/4507370318344307594'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/procura-de-mr.html' title='À procura de MR'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-141912003851162123</id><published>2009-05-20T08:38:00.001-07:00</published><updated>2009-05-21T15:40:43.682-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Minicontos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Volnei Zerbielli'/><title type='text'>Guerra</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt; &lt;span style="font-style: italic;" dir="ltr"&gt;Volnei Zerbielli&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span dir="ltr"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span dir="ltr"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Os generais no campo de batalha posicionam suas tropas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A infantaria esquivamente infiltra-se nas defesas do inimigo, enquanto a artilharia posicionada aguarda a ordem de disparo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tiro foi dado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só o que se ouve é o zunir do vento provocado pelo projétil em alta velocidade cruzando o céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Angustiadas, enquanto isso, milhares de almas silenciadas pelo acontecimento aguardam e observam aflitas, o cruel desfecho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O projétil atinge o alvo em cheio, destruindo tudo o que se levou muito tempo para se construir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As almas, antes em silêncio, agora gritam desesperadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Goooooooooooollllll.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-141912003851162123?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/141912003851162123/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/guerra.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/141912003851162123'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/141912003851162123'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/guerra.html' title='Guerra'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-9058706658776854513</id><published>2009-05-20T08:37:00.000-07:00</published><updated>2009-05-21T15:40:36.154-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônicas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Volnei Zerbielli'/><title type='text'>Tiro ao Álvaro</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;" dir="ltr"&gt;Volnei Zerbielli&lt;/span&gt; &lt;span dir="ltr"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span dir="ltr"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span dir="ltr"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;É impressionante como em certas situações, numa simples troca de olhares, as coisas mudam. Não importa onde você esteja, seja caminhando pela rua, sentado numa mesa de bar, no seu local de trabalho, atendendo um cliente. É fatal, em algum momento a troca de olhares sempre acontece. Geralmente você atrai os olhares, quando a sua aparência chama atenção ou pelo desleixo ou pelo seu charme e elegância. E se for pelo charme e elegância, melhor, pois o mundo passa a te olhar com outros olhos, ou pelo menos, de maneira bem diferente da usual. Esses olhares carregados de expressão, muitas vezes, parecem disparar flechas ao nosso encontro. E...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    &lt;span style="font-style: italic;"&gt;De tanto levar frechada do teu olhar...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Meu peito até parece, sabe o que?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Taubua de tiro ao Álvaro, não tem mais onde furar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Realmente, dependendo da situação em que nos encontramos, e de quem nos olha, é exatamente assim que ficamos, todo perfurado, parecendo uma peneira. E sem contar que às vezes, esse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Teu olhar mata mais do que bala de carabina&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Que veneno estriquinina&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Que peixeira de baiano&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Mas que olhar  fulminante, arrasador, sem dó e sem piedade. Olhares assim, só nos são agradáveis quando disparados pelo ser, que nos é objeto de desejo, que nos paralisa, deixando-nos embasbacados, sem ação e reação, perdendo o rumo, completamente perdido. Aí chegamos à conclusão de que realmente o...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Teu olhar mata mais&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Que atropelamento de automóver&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mata mais que bala de revórver&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    E convenhamos, que maneira mais agradável de morrer, um disparo certeiro, fulminante, devastador, de um simples olhar. Gostaria de morrem assim todos os dias a todo instante, cada vez que o teu olhar com o meu se cruzar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-9058706658776854513?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/9058706658776854513/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/tiro-ao-alvaro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/9058706658776854513'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/9058706658776854513'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/tiro-ao-alvaro.html' title='Tiro ao Álvaro'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-3143338869760414237</id><published>2009-05-20T08:33:00.000-07:00</published><updated>2009-05-21T15:40:29.695-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Volnei Zerbielli'/><title type='text'>ROTA 66</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt; &lt;span style="font-style: italic;" dir="ltr"&gt;Volnei Zerbielli&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span dir="ltr"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span dir="ltr"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;A oficina ROTA 66 não era apenas conhecida pela analogia, pelo menos daqueles que liam o letreiro pendurado na entrada, à famosíssima interestadual norte americana, mas pela excelente qualidade dos serviços que lá se realizavam, inclusive nos estrangeiros, pelos irmãos Meia-Roda e Meia-Boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Nessa oficina, assim como na famosa estrada, passavam por ali belíssimas máquinas, tanto as mais antigas que levam qualquer um a voltar no tempo do início da era do automóvel, nos remetendo a uma belíssima nostalgia, como as mais modernas, que fazem qualquer criança de 12 anos se tornarem um campeão das pistas. Tamanha a facilidade de se guiar um carro desses cheios de tecnologia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Sabendo desses quesitos o Sr. Stewart, grande corredor da década de 60, levara a sua Masserati 1967 para que fosse acariciada pelos irmãos. Ela estava precisando de uma afinação, aquele motor V6, na gíria dos mecânicos, estava meio quadrado, dava um vácuo na aceleração, algo estava falhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Resolvido o problema o Sr. Stewart foi dar uma volta, experimentar para ver como ficou  o seu brinquedo. Ficou boquiaberto. Nunca tinha corrido tanto de carro em sua vida, mesmo nas pistas, como ele correu naquela voltinha de ida e volta até o pedágio de Osório. Os 260 cavalos de potência do motor empurraram aquela belezinha à 285km/h. Como dizem os aficionados, literalmente trancou os ponteiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Voltou à oficina e disse aos rapazes, que eles eram loucos, perguntou o que fizeram no carro, pois tinha ficado um espetáculo. Pagou a conta com muito gosto, até queria dar mais uma gorjeta, mas os rapazes recusaram dizendo-lhe que a melhor gorjeta que eles poderiam receber era a inteira satisfação dos seus clientes. Ouvindo isso o Sr. Stewart disse que traria muitos amigos ali, e foi o que fez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     O Sr. Ferrari, aconselhado pelo seu amigo Stewart, levou até a oficina ROTA 66 o seu Buick 1958. Comentando com os rapazes que achou muito interessante o nome que deram para a oficina, disse que lá nos Estados Unidos, onde andou de Buick pela primeira vez, foi numa estrada chamada de ROUTE 66. Essa estrada é uma interestadual muito famosa por lá que atravessa o país de um lado a outro com os seus 3755 km, que seria o mesmo que ir de Porto Alegre até Aracajú.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Mas o Sr. Ferrari ficou espantado quando soube que os rapazes não conheciam e muito menos tinham ouvido falar nessa tal estrada. Intrigado, perguntou então como surgiu, para eles, o nome ROTA 66. E foi quando obteve a resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Reparadores Obstinados Tarados por Automóveis Meia-Roda e Meia-Boca.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-3143338869760414237?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/3143338869760414237/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/rota-66.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/3143338869760414237'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/3143338869760414237'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/rota-66.html' title='ROTA 66'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-3084487672928457827</id><published>2009-05-16T08:10:00.001-07:00</published><updated>2009-05-16T08:20:57.357-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gabriela Vargas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônicas'/><title type='text'>De quando algo mudou</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;" class="subtitulo"&gt;Gabriela Vargas&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Sempre quando se fala em primeira vez é normal lembrarmos do nosso primeiro beijo, do primeiro namorado, da primeira transa; porém, existem primeiras vezes tão sutis que, muitas vezes, quase passam despercebidas. Interessante também é quando temos um período de contínuas primeiras vezes na nossa vida. Tantas e tão diferentes que chegam a estontear.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro que ano passado, enquanto passava as férias de julho no Rio de Janeiro, na casa da minha tia, soube que minha avó estava na UTI em Porto Alegre. No começo, não me preocupei muito, pois fazia poucos dias que eu havia viajado e ela ainda estava bem, no entanto, aos poucos fui vendo que a situação era mais complicada do que eu imaginava. Um tempo se passou e ela faleceu. Morreu e eu não me despedi, pois estava no Rio. Então, a partir daquele dia, tantas primeiras vezes aconteceram na minha vida que fico impressionada somente por relembrá-las e senti-las tão pulsantes dentro de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela foi a primeira vez em que eu não queria voltar para casa. Sentia uma mistura de medo e impotência. Não queria chegar ao aeroporto e receber abraços entristecidos e tão fracos quanto eu. Desejava com todas as minhas forças continuar ali, de férias, fingindo que nada havia acontecido, brincando nas dunas com o meu primo e me bronzeando na praia. Aquela foi a primeira vez que eu olhei para a minha tia como se pedisse para ela pegar a minha mão, me tirar daquele aeroporto e me levar pra sua casa. Isso não aconteceu. Então, pela primeira vez, fui chorando do Rio de Janeiro à Porto Alegre, querendo que o avião nunca chegasse, que mudasse de rumo ou caísse de uma vez. Nada aconteceu... Eu não podia mudar os fatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raiva! Cheguei, recebi os tais abraços e senti como se tivessem tirado parte de mim. Pela primeira vez percebi de imediato que havia ocorrido uma mudança realmente grande na minha vida, daquelas como cortar o cabelo bem curto, mudar de cidade ou perder alguém amado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu perdi...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com certeza, essas não foram as primeiras vezes mais felizes e especiais da minha vida, mas como toda primeira vez, foram inexperientes e, consequentemente, geradoras de, no mínimo, um pequeno amadurecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pensando bem, quem nunca teve uma primeira vez semelhante? E quantas ainda não estarão por vir?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-3084487672928457827?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/3084487672928457827/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/de-quando-algo-mudou.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/3084487672928457827'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/3084487672928457827'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/de-quando-algo-mudou.html' title='De quando algo mudou'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-7375852444142903375</id><published>2009-05-16T08:09:00.002-07:00</published><updated>2009-05-16T08:21:29.686-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Luiz Eduardo Amaro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônicas'/><title type='text'>Meu primeiro apartamento</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Luiz Eduardo Amaro&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Há seis meses, disposto a conceder-me a privacidade que meus trinta e cinco anos vinham reclamando há tempos, troquei a casa de meus pais por um apartamento em Petrópolis. O imóvel, se não era grande coisa, era grande o suficiente para acomodar minhas roupas, meus livros e uma velha bicicleta ergométrica, usada mais como cabide do que como ferramenta para a boa forma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O edifício de três andares não tinha elevador, o que me parecia vantajoso: tornava o condomínio mais barato e ainda obrigava-me a subir dois lances de escada ou trinta e quatro degraus. Isso me aliviava o peso na consciência de usar a bicicleta ergométrica apenas como cabide.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho para o 302, meu apartamento, passava pela porta do 102, onde vivia dona Olga, do lar, como ela própria se definia, e mãe de dois jovens de futuro incerto. Seu Osvaldo, o marido, era funcionário público aposentado. Tinha mais de sessenta e andava quase sempre com um abrigo cinza claro de moletom, desses que se compra em lojas populares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Típica classe média dos grandes centros urbanos, dona Olga se desdobrava para dar um mínimo de conforto e poder aquisitivo à sua família. Não se podia negar o brio com que levava a cabo sua tarefa. No entanto, sem receber o reconhecimento dos outros membros da família, tratava de granjear, ela própria, o reconhecimento dos vizinhos no cumprimento de seus deveres como dona de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse aspecto, eu era tudo de que dona Olga precisava: formado em economia, pós-graduado em finanças, novo no edifício e morando sozinho, passava duas ou três vezes por dia na sua porta, reunindo todas as condições para servir-lhe de escada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como vai? Eu sou a Olga, do 102. O senhor é o novo proprietário do 302, não é? – arriscou, quando me encontrou pela primeira vez no corredor. Tão logo afirmei que sim com a cabeça, ela indagou: – Quanto pagou pelo apartamento, se não se importa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora ainda nem soubesse seu nome, achei que ser receptivo fazia parte do manual de etiqueta dos novos proprietários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Paguei 120 mil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É que compramos o nosso no ano retrasado. Pagamos 108. Tu vê, uma boa diferença: doze mil reais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu poderia ter argumentado que apartamentos localizados em andares mais altos geralmente valem mais. Além disso, o meu tinha tabuão, enquanto o dela, pelo que pude ver pela fresta da porta, tinha uma forração surrada de cor indefinida. Mas o que é que dona Olga pensaria de mim? Preferi sorrir e dizer-lhe o que ela queria ouvir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A senhora fez um excelente negócio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, continuei subindo em direção ao meu apartamento, enquanto ela dava um até logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mês seguinte, com a aproximação do inverno, resolvi colocar uma janela de alumínio na área de serviço, o que iria aumentar meu espaço disponível e facilitar a instalação da nova máquina de lavar roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O senhor mandou fechar a área, é? – perguntou-me ela na portaria do edifício, já sabendo a resposta. Depois de eu ter confirmado, ela indagou: - Quanto lhe custou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seiscentos e cinqüenta, em duas vezes – respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu Deus, que caro! No ano passado trocamos a janela da nossa. Consegui por quatrocentos e cinqüenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu poderia ter argumentado que, em um ano, apesar da inflação estar sob controle, o alumínio havia subido muito, impulsionado pelo crescimento exagerado da China e da Índia, dois países que vinham comprando toda e qualquer commodity que estivesse sobrando no mundo. Também poderia ter dito que o Brasil, gigante adormecido, parecia estar se movendo um pouco mais rápido, depois de muito tempo, principalmente na construção civil, o que poderia estar contribuindo para o aumento de materiais relacionados a esse ramo. Mas o que é que dona Olga entendia disso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preferi dizer-lhe o que queria ouvir: “Muito bom negócio” e tratei de seguir para o meu apartamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em setembro, detectando que uma das portas internas estava com cupim, resolvi trocá-la. De porta nova e disposto a manter a política da boa vizinhança, fui abordado, mais uma vez, por dona Olga:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vi tua porta velha, disse ela. – Tomada de cupim, não é? “Pois é”, falei. “Coisa difícil de perceber quando se está comprando um imóvel no inverno”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Olga pareceu não escutar minha justificativa, ansiosa por encaminhar a pergunta que eu já sabia que viria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quanto está uma porta nova? – indagou. Confesso, sinceramente, que me deu vontade de chutar a metade do preço que havia pago. “Mas por que faria isso?”, pensei comigo mesmo. E falei a verdade: quinhentos reais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Olga torceu levemente a boca, como se dissesse “Pobre rapaz!” E continuou: “Há pouco mais de um ano, trocamos três portas internas. Conseguimos por mil reais. E para pagar em três vezes!”, enfatizou ela, apontando-me três dedos da mão direita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu poderia ter-lhe dito que não tinha nem tempo nem paciência para andar correndo atrás de portas internas. Ou poderia dizer-lhe simplesmente que a minha, com certeza, era melhor que as dela. Ou pior: poderia ter-lhe devolvido que, já que ganhava bem mais que a família inteira dela, dava-me o direito de achar que quinhentos reais estava bom. Mas o que dona Olga pensaria disso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei sorrir e balbuciei um bom negócio, antes de subir os trinta e quatro degraus até meu apartamento. Dona Olga assentiu e, fechando a porta orgulhosa, desejou-me boa noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns dias depois, quando saía do edifício, fui abordado na calçada por dois meninos com quatro bandejas de reluzentes morangos. Ofereceram-se cada uma por um real e cinqüenta centavos ou as quatro por cinco reais. Parecendo-me que os frutos eram sadios e os meninos, honestos, fechei o negócio na hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Convencido de que havia feito uma boa compra – uma bandeja daquelas não saía por menos de dois reais e cinqüenta centavos -, já ia subir para guardar os morangos, quando vi dona Olga retornando da feira que ocorria toda quinta no nosso bairro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pude deixar de me assanhar com a possibilidade de mostrar a ela que eu também sabia fazer bons negócios domésticos. A quantia envolvida não era grande, mas era o valor simbólico da transação que importava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperei-a na calçada com um sorriso maroto nos lábios. Ainda mais quando vi que em cima da sacola de plástico vinham duas bandejas de morango cuidadosamente arrumadas para que os frutos não fossem amassados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bom dia, dona Olga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bom dia, seu Márcio, respondeu ela, já mirando meus morangos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vejo que tivemos a mesma idéia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois é, respondeu ela. - De onde tirou esses morangos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de dizer-lhe de onde havia tirado as frutas, já fui avisando-a, com o sorriso ainda no rosto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dona Olga, acho que fiz um bom negócio desta vez. E sem precisar ir muito longe de casa! Assim que saí do edifício, dois meninos me ofereceram estes morangos! Comprei as quatro bandejas por cinco reais. Vou ficar com duas e levar as outras duas para minha mãe fazer uma torta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, seu Márcio - disse dona Olga, colocando a mão sobre a boca, numa expressão tão falsa de lamento que mal conseguia esconder sua faceirice. – Os produtores estavam distribuindo essas bandejinhas de graça na feira. Cada pessoa podia pegar duas. Era só assinar uma lista, em apoio à luta deles por mais crédito para a agricultura. Que pena! Se o senhor andasse mais duzentos metros, não botava seu dinheiro fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me de ter procurado, naqueles décimos de segundo em que se fez silêncio, alguma coisa espirituosa para falar, mas não havia jeito: naquele teatro, naquela tragicomédia encenada regularmente no coração do bairro Petrópolis, quisesse eu participar ou não, a mim sempre estaria reservado o papel de otário. À dona Olga, o de heroína.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já estou até pensando em colocar meu apartamento à venda. É lógico que, para dona Olga, vou fazer outro mau negócio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-7375852444142903375?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/7375852444142903375/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/meu-primeiro-apartamento.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/7375852444142903375'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/7375852444142903375'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/meu-primeiro-apartamento.html' title='Meu primeiro apartamento'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-8973068148990252017</id><published>2009-05-16T08:09:00.001-07:00</published><updated>2009-05-16T08:21:29.686-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Lauren Davi'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônicas'/><title type='text'>Da Vez Primeira em que Fui Esquiar</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;" class="subtitulo"&gt;Lauren Davi&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;O sono quentinho debaixo das cobertas estava muito bom, e lá fora ainda escuro. A neve caía como flocos de açúcar, e o vento corria pelas ruas como fosse o dono do lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O alarme do relógio me desperta, barulhento. Sem pensar duas vezes, levanto-me num salto. Levanto-me, mas não acordo. Isso mesmo – estava na hora de sair da cama, mas era cedo para despertar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda no modo automático, com o cérebro em stand-by, dirijo-me ao banheiro, abro a torneira, a água que sai está perto do ponto de congelamento. Lavar o rosto não seria uma experiência agradável, mas paciência, pelo menos assim o cérebro acorda, no susto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apressada, apanho a mochila, calço as botas de neve e visto o meu casacão modelo esquimó. Desço as escadas rapidamente, sem fazer barulho. Um café da manhã rápido, estilo canadense – panquecas com xarope de bordo. Delícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hora de sair. Luvas nas mãos, gorro na cabeça, cachecol cobrindo o nariz. Lá fora, Toronto despertava lentamente, como se a cidade inteira estivesse dando um grande bocejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, como uma criança, caminho chutando a neve, brincando com aquela coisa branca tão linda que ainda era novidade para mim. Cruzei a Avenida Silverton, entrei na Rua Invermay e segui em direção à Avenida Wilson. Qualquer canadense que passasse por mim ficaria imaginando que tanta graça eu achava em ver a neve precipitando-se. Deveria ser tão divertido quanto ver a chuva caindo em pleno sertão nordestino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus veio lotado. Desci na estação York Mills. O metrô também veio lotado. Na estação Eglinton, desço e encontro alguns colegas brasileiros, todos muito empolgados com a aventura do dia. Caminhamos juntos até a frente de nossa escola, onde alunos de todas as partes do mundo aguardavam o school bus amarelo que nos levaria até o Horseshoe Valley Ski Resort, na cidade vizinha de Barrie. E o vento soprava gélido, amortecendo nossas faces.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem até Barrie foi tranqüila. Ao chegarmos à estação de esqui, um instrutor sobe em nosso ônibus e dá as primeiras orientações. Assustei-me somente ao pensar nos eventuais acontecimentos que levaram o resort a exigir seguro-saúde de todos que lá se aventuravam. Mas já que eu estava lá, iria encarar qualquer desafio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro desafio foi calçar as botas de esqui, dois trambolhos cinza chumbo, pesados e nada flexíveis, seguidos de umas quinhentas tramelas para fechar a bota corretamente. Saí andando dura e desajeitada como o Robocop, passei em outra salinha onde me alcançaram os esquis e os ski poles (aquelas duas hastes que você segura na mão, que ora ajudam no equilíbrio, ora facilitam a queda).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Equipada, segui para uma aulinha básica. O instrutor experiente fazia tudo parecer muito fácil, mas tanto a Lei da Inércia quanto a força g pareciam conspirar contra todos nós. Sobre os esquis, andamos em círculos, freamos, demos a volta. Até ai, tudo bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O próximo passo era subir um declive, andando de lado no estilo caranguejo. Falar era fácil, difícil era coordenar-se. Mão direita, pé direito, mão esquerda, pé esquerdo, e aos poucos eu fazia progresso. No final do declive, outro instrutor experiente que esquiava de ré e de costas para o declive fazia-nos parecer otários – mal conseguíamos ficar em pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a tarefa era simples: descer o declive, virar à esquerda, depois à direita, e frear. O japonês que foi primeiro estava indo muito bem até dar uma guinada em nossa direção e fazer um strike com a galera. E, para piorar a situação, tinha chegado minha vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respirei fundo, e fui. Desci reto como um foguete, tendo pouco ou nenhum controle sobre minhas pernas. Meus esquis foram entortando para a esquerda, fui fazendo a curva. Atrás de mim, ouvia o instrutor gritar, “To the right! To the right!” mas eu continuava virando para a esquerda. O coração disparado já previa a tragédia. Um esqui entrou na frente do outro, dei um giro de 360 graus e fui de cara na neve. Fracasso total. E ainda por cima eu não conseguia levantar por causa do peso dos esquis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando pensei que teria que refazer o exercício, olho para o instrutor com uma cara de ponto de interrogação, esperando que ele dissesse para eu voltar. Mas, para meu espanto, ele faz sinal de positivo com a mão e grita “Very good! Go ahead!”. “Como assim?”, pensei. “Eu desço rolando declive abaixo e ele diz que foi bom?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, parto para a pista principal. Uma carona de teleférico até o início do declive parecia uma boa idéia. Junto com uma colega, subimos em uma daquelas cadeirinhas que nos elevavam acima dos pinheiros cobertos de neve. A vista era linda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com os esquis em posição, preparo-me para descer. Como já não bastasse a dificuldade da situação por si só, a cadeira do teleférico ainda dava um empurrão extra em quem descia dela. Mal encostei os esquis no chão e já escorreguei para o lado, dando um nó nas pernas e caindo de boca aberta na neve. Já era o segundo tombo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já pensando em qual seria o equivalente canadense a um tubo de Gelol, me preparo para a primeira descida. Foi então que inaugurei uma nova unidade de medida - Quedas por Metro. A cada dois metros uma queda bastante doida. A questão do seguro-saúde começou a fazer sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha última queda foi a gota d’água. Caí de barriga na neve, que era dura como concreto, quase deslocando o ombro. Meus pés torcidos para o lado evitavam que eu me levantasse. Frustrada, zangada e morrendo de vergonha, fiquei lá deitada até que dois gentis esquiadores viessem me ajudar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Auxiliaram-me a levantar e me ofereceram uma garrafa d’água. Agradeci, disse que estava bem e fiquei lá sentada com cara de tacho. Resolvi descer o resto do declive a pé, carregando nas costas os esquis. “Não acredito que desperdicei cinqüenta dólares com isso!”, esbravejei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de dar um tempo na lancheria, voltei com todo o gás, decidida a aprender a esquiar. E continuei caindo. Caí de lado, de bunda, de cara no chão, em cima de um colega, caí até quando estava parada no mesmo lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele dia, aprendi uma nova expressão idiomática. Toda vez que eu caía, algum infeliz passava do meu lado e dizia “You’ll get the hang of it!!” Eu não sabia que “pegar o jeito” seria tão doloroso. Porém, entrara em cena meu desejo de superação, e desisti de desistir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final da tarde, havia quem dissesse que eu já esquiava há anos. Eu mesma, a brasileira que vira a neve pela primeira vez, agora esquiando! Em alta velocidade, cortava a neve com destreza e, nem mesmo desacelerando, entrava novamente na fila do teleférico em um golpe só. E sem atropelar ninguém, como fez aquele japonês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja por situações como essa que dizem que brasileiro não desiste nunca. A regra é a persistência – sempre dar um “jeitinho”, ainda que seja no meio da neve, que agora tinha mais graça do que nunca.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-8973068148990252017?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/8973068148990252017/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/da-vez-primeira-em-que-fui-esquiar.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/8973068148990252017'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/8973068148990252017'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/da-vez-primeira-em-que-fui-esquiar.html' title='Da Vez Primeira em que Fui Esquiar'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-7893483577712185354</id><published>2009-05-16T08:08:00.001-07:00</published><updated>2009-05-16T08:23:20.648-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Luiz Eduardo Amaro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Minicontos'/><title type='text'>Olhar animal</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;" class="subtitulo"&gt;Luiz Eduardo Amaro&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Observou-a com olhos de lobo.&lt;br /&gt;Aproximou-se com olhos de lince.&lt;br /&gt;Atacou-a com olhos de águia.&lt;br /&gt;Suplicou-lhe com olhos de poodle.&lt;br /&gt;Retirou-se com olhos de burro.&lt;br /&gt;Ela nunca assistia ao Animal Planet.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-7893483577712185354?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/7893483577712185354/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/olhar-animal.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' 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Lorenzoni'/><title type='text'>Salto alto</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Hélade Lorenzoni&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Às vezes&lt;br /&gt;Meu macho interno&lt;br /&gt;Quer ser travesti.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-8699970323844253202?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/8699970323844253202/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/salto-alto.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/8699970323844253202'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/8699970323844253202'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/salto-alto.html' title='Salto alto'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-4446017295333136735</id><published>2009-05-16T08:06:00.002-07:00</published><updated>2009-05-16T08:23:51.888-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vicente Saldanha'/><title type='text'>Agridoce</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;" class="subtitulo"&gt;Vicente Saldanha&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;O rapaz entra no restaurante, senta-se junto à janela e deixa a mochila na cadeira. O suor lhe escorre pela testa. Inspira o ar refrigerado enquanto a música oriental preenche o ambiente. Procura o cartaz familiar ao fundo do salão, levanta-se e vai ao banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Serve o prato no buffet, senta-se e come lentamente, a música suave embalando-lhe a mastigação distraída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caixa, a dona mexe alguns papéis. Um menino de uns cinco anos brinca perto dela, fala sozinho em língua estrangeira e caminha para longe e perto. Por vezes, a criança pergunta algo e a mulher responde com monossílabos na língua nativa dos dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela atende um cliente, esboça um sorriso tímido e lhe dá o troco com uma leve deferência. O menino imita o gesto, sorriso aberto para o homem que sai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a sobremesa o rapaz ouve a voz estridente da criança, correndo até a porta do restaurante e de volta para junto da mãe. E então: a mulher ralha com o menino em língua raivosa, olha ao redor e lhe chuta o flanco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A colher caída ao lado do prato, o rapaz não consegue mais engolir. Uma onda de gosto azedo sobe-lhe do estômago e o pudim fica intragável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto ele paga sua conta, nota o menino encolhido atrás da mulher, soluçando, e ela esboça um sorriso tímido e lhe dá o troco com uma leve deferência. Ele olha fundo nos seus olhos, tentando ler amor, raiva, ou tradição. Nada, apenas o sorriso sem convicção e um obrigado tortuoso. Quer dizer algo, protestar, mas as palavras trancadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Sai com a mochila no ombro e de cabeça baixa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-4446017295333136735?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/4446017295333136735/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/agridoce.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/4446017295333136735'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/4446017295333136735'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/agridoce.html' title='Agridoce'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-1075488841031584475</id><published>2009-05-16T08:06:00.001-07:00</published><updated>2009-05-16T08:23:51.888-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sandra de Almeida Silva'/><title type='text'>João Caolho</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;" class="subtitulo"&gt;Sandra de Almeida Silva&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;A banca estava sempre cheia de chás. João ficava a maior parte do tempo sentado, lendo com seu único olho uma revista velha ou o jornal do dia. Quando chegava um cliente, largava a leitura com certa relutância, ia afastando o jornal, lendo ainda algumas linhas, até que o largava definitivamente no banquinho ao lado para, só então, atender a pessoa que estava na sua frente. Esboçava um meio sorriso, dizia um pois não e escutava sem interesse o que o cliente falava. O viaduto cinzento abrigava-o da chuva e do sol, porém canalizava o vento nos dias de inverno. Muito magro, João tremia de frio. Não importava quantas camadas de roupa vestisse, o ar gelado atravessava uma a uma, entrava pela pele, até os ossos. Às suas costas, duas madonas de pedra empunhavam tochas que, depois das seis horas da tarde, iluminavam a banca improvisada com caixas de frutas. Ali, de certa forma, sentia-se protegido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E era por volta das seis e meia, horário de maior movimento de carros e pedestres na avenida que, todos os dias, Ela aparecia. Um pouco antes, João penteava o cabelo, fechava o zíper da jaqueta de nylon, passava uma escova nos sapatos e, intranqüilo, esperava. Se um cliente o abordasse naquela hora, atendia-o com mais pressa que o costume, ou mentia que estava recolhendo a mercadoria e despistava-o para concentrar-se na espera. Ela vinha em passos lentos, como que cansada da subida, em direção ao centro, e ele logo a distinguia, viva e colorida, esgueirando-se entre a multidão opaca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o devoto diante da aparição de uma santa, adorava o movimento gracioso da mulher. Dela nada sabia, nem nome, nem profissão, nem amores, sobretudo para ele nada disso tinha importância. Ela se aproximava, ele a observava, apenas isso. Era o único momento de comunhão, em que podia respirar, talvez, uma partícula do mesmo ar que antes estivera nos pulmões dela, percorrera suas artérias e veias, o coração. No momento exato em que passava na sua frente, Ela erguia os olhos para ele, dizia boa-noite, como vai o senhor hoje, a boca bem feita, o rosto claro, imagem sem mácula, ele respondia bem e a senhora vai bem, instante mínimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca se soube ao certo o que houve naquela tarde em que ela não veio e nas outras que se seguiram depois. Já passava das sete horas. João estava impaciente, quando se ouviu uma freada brusca. Um burburinho se formou na esquina com a rua de baixo e João, com o coração apertado, correu também. Uma mulher estava estendida no asfalto, quem sabe morta, meio corpo embaixo de um ônibus. O povo se acercou para ver a cena e ninguém, nem mesmo João, conseguiu reconhecê-la. A ambulância veio, carregou-a, e ele viu apenas um rosto transfigurado, cabelos desalinhados, no chão a poça de sangue, a sirene ecoando na boca da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João voltou para recolher os chás e ir embora, no pensamento a cena da mulher morta se confundindo com o rosto daquela outra que, sem saber, nunca mais verá. Um vento frio percorria a rua, a banca vazia, ervas rolavam espalhadas pelo chão. João encolheu-se, ajeitou os óculos e sentiu doer seu olho esquerdo na órbita vazia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-1075488841031584475?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/1075488841031584475/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/joao-caolho.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/1075488841031584475'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/1075488841031584475'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/joao-caolho.html' title='João Caolho'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-6758196592310776526</id><published>2009-05-16T08:05:00.002-07:00</published><updated>2009-05-16T08:23:51.888-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sandra de Almeida Silva'/><title type='text'>Lobo Mau</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;" class="subtitulo"&gt;Sandra de Almeida Silva&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;A criatura se aproximava cada vez mais. A menina tenta correr, sem conseguir sair do lugar, os pés afundando. Tenta gritar e seu grito não é mais do que um mover lento de lábios, sem ar, nem um sussurro. No meio da noite, ela acorda e sabe que o pesadelo apenas está começando, como das outras vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto não está escuro o suficiente para esconder os contornos da porta, onde os seus olhos se fixam como garras. Ela sabe a rotina das outras noites: primeiro o leve movimento do trinco, depois o vão começa a se abrir devagar, a silhueta escura entra e vai se avolumando sem rosto, os braços como amarras, o cheiro forte de cigarro enjoando o ar. A náusea tomando conta do corpo todo. Hoje vai ser diferente, ela diz baixinho, as mãos em concha sobre a boca para ouvir a própria voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pezinhos dormentes descem da cama e tocam nus o chão gelado e sujo. O corpinho em tremedeira se movimenta com a rapidez de um ratinho fugitivo, passa uma, duas, as quatro camas que a separam da janela e alcança o extremo oposto do quarto. Rosnam os primeiros barulhos do outro lado da porta, a vida batendo dentro do peito, ela faz força com os braços magrinhos, a janela faz um rangido e abre generosa uma fresta. O ar frio invade o quarto e traz com ele uma lembrança branca, nenhum endereço, só pincelada macia de afeto, sabor de leite morno. Ela olha para trás, ainda pode ver a porta mover-se, o sinal da cruz, um pulo apenas, e as asas do anjo abrem-se livres no vazio da madrugada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-6758196592310776526?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/6758196592310776526/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/lobo-mau.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6758196592310776526'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/6758196592310776526'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/lobo-mau.html' title='Lobo Mau'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-7011579452328587592</id><published>2009-05-16T08:05:00.001-07:00</published><updated>2009-05-16T08:23:51.888-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Margot Villas'/><title type='text'>Na praia</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Margot Villas&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Fazia um calor danado. Eu estava sentado sob um guarda sol observando aquele mar azul, quieto, sem coragem de levantar um dedo. Aquela tarde decidi que ficaria dias inteiros sem fazer nada. Nada mesmo. O dia estava perfeito para isto, não queria nem pensar na minha sonsa vida. A areia branca, o céu sem uma nuvem e aquele sol roxo de tão forte formou a moldura para o que aconteceria em seguida: Melissa aparecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhando em minha direção como uma doce nuvem em formato de mulher, os cabelos compridos e negros, o biquíni branco, aquele corpo bronzeado logo me tirou daquela sensação maluca. Não era uma nuvem mesmo, as nuvens não possuem seios, nem bundas, nem cabelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ela se aproximou, abriu seus lábios e, vagarosamente, mas muito vagarosamente perguntou o senhor têm horas? Fiquei extasiado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela pergunta mudou o rumo das minhas férias, para não dizer da vida. Todos os dias seguintes do mês de Janeiro, eu levantava da cama, tomava café rapidamente, colocava meu relógio barato e sentava no mesmo lugar da praia, esperando Melissa perguntar as horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente ela apareceu várias vezes e nos tornamos amigos. Até o dia fatídico em que meu mundo caiu. Estávamos conversando sobre banalidades quando um rapaz queimado do sol, alto e musculoso, com aproximadamente trinta anos, chegou por trás de Melissa e a abraçou, beijando-lhe loucamente a nuca descoberta pelo cabelo. Minha dor levaria algum tempo para desaparecer: iniciou quando vi, no rosto dela, a felicidade causada pelo gesto do rapaz. Dor de perda e de inveja, de perda porque depois daquele dia nunca mais Melissa apareceu na praia. De inveja porque o motivo da felicidade não era eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No resto das férias, fiquei no meu quarto de hotel olhando para o teto e pensando em Melissa. Será que ela havia comprado um relógio?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-7011579452328587592?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/7011579452328587592/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/na-praia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/7011579452328587592'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/7011579452328587592'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/na-praia.html' title='Na praia'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-5046435356893015941</id><published>2009-05-16T08:04:00.001-07:00</published><updated>2009-05-16T08:23:51.888-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Marli de Oliveira'/><title type='text'>Nós duas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Marli de Oliveira&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Cheguei em casa à noitinha, cansada depois de um dia atribuladíssimo, sentei no sofá, tirei os sapatos enquanto revirava as almofadas em busca do controle remoto. Na mesa ao lado, um copo com gelo me acenava. Ao final do wisquinho e ainda ao som de Prem Joshua, juntei minhas tralhas e subi, ansiosa por vê-la, ali, no quarto, esperando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos juntas no banho. Liguei o aquecedor e esperei a água esquentar enquanto a acariciava – ela insistindo em me abraçar. Incrível a sintonia entre nós duas. Uma delícia estar num lugar onde não nos conhecem, porque ali ninguém nos vê, ninguém nos julga, nem condena, nem absolve. Ali somos só nós. Dançamos - ela e eu -, num antigo ritual, muito conhecido por nós duas, e sempre desejado. Ora frenética, ora lenta e abusiva, ela me abraça macio, me lambe o rosto, o corpo, as pernas. E eu, permissivamente, mostro-lhe os caminhos a percorrer, com calma e satisfação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, jogadas na cama, eu na cabeceira e a ela nos pés, dormimos o sono dos justos. Pela manhã, acordo leve e tranqüila, escolho minha roupa para usar naquele dia, tomo um café, volto ao quarto e vejo minha velha e querida toalha-de-banho, molhada e jogada aos pés de minha cama. Coloco-a na máquina junto com as demais roupas e saio para o trabalho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-5046435356893015941?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/5046435356893015941/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/nos-duas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5046435356893015941'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/5046435356893015941'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/nos-duas.html' title='Nós duas'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-437903171578810084</id><published>2009-05-16T08:03:00.001-07:00</published><updated>2009-07-13T14:23:44.876-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='K.&apos;.I.&apos;.N.&apos;.G.&apos;.'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>E eu com isso?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;K.'.I.'.N.'.G.'&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="subtitulo"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Você acorda de manhã, com o sol acariciando seu rosto suavemente, dizendo que aquele seria um bom dia. Seu amor já se levantou e não demora até que traga um belíssimo café na cama, uma gentileza quase diária. Seu filho, já preparado, espera-o para irem à escola juntos, sempre bem animado e disposto. Você pega seu carro, com uma tecnologia que polui bem menos que a maioria, e inicia seu agitado dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fulano(a) acorda com o sol quadrado, dando seu sorriso dourado, anunciando que para ele(a) aquele também era um dia ótimo. Ele caminha lentamente pelos corredores onde seus colegas, agora ex, dormem tranquilamente sonhando com a “liberdade”. Ele(a) vai até a porta de seu cárcere e se despede com um gesto raivoso de seu dedo. Passeia na cidade imaginando como será, quanto tempo durará sua vida ali fora, e de repente, como se o destino tivesse conspirado à seu favor, ele encontra uma carteira cheia de dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você a esta hora, já levou seus filhos na escola e estaciona seu carro algumas quadras longe de seu serviço, para poder caminhar um pouco. “Sim”, você pensa em sua saúde. Fazia bem caminhar ao amanhecer. Ao chegar ao trabalho, você cumprimenta seus amigos, marca churrascos, conta uma piada que todos acham graça e vai até seu escritório fazer aquilo para que lhe pagavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fulano(a) verifica um endereço na carteira. Quem quer tivesse perdido tinha certeza da bondade de alguém que a encontrasse, caso perdida. Além dessa certeza, pelo número de notas, tal pessoa podia ter muito mais dinheiro e Fulano(a) percebe que aquela era uma chance de se dar bem. Vai até a residência do(a) distraído(a).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você faz seu serviço e após algumas horas concentrado em seu trabalho, é hora do almoço. Você vai a um belo restaurante com seus colegas, os quais você jamais cansa da presença. Toma um bom vinho e faz sua dieta balanceada. Satisfeito e animado, vai para a faculdade, porque embora você saiba de um tudo ainda gosta de estudar, de adquirir muitos conhecimentos. Lá, depara-se com uma redação sobre pena de morte. Lógico, inteligente e cheio de argumentos, você convence seus colegas de que pena de morte é um absurdo, direitos humanos deviam prevalecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fulano(a) chega à casa de(a) distraído(a). Ele(a) toca a campainha normalmente e quando uma pessoa , por sinal muito bela, abre a porta, ele não hesita em desferir um golpe com sua mais nova faca, que havia comprado com seu novo dinheiro, “uma daquelas que corta tubos de cobre”. O sangue jorra na porta de carvalho branco fazendo-a valer o dobro se em uma feira de arte moderna. Fulano(a) nota que a pessoa no chão não era o(a) distraído(a) e fecha a porta, com medo de que alguém escute os murmúrios guturais da vítima que se afoga no próprio sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você, depois da aula, vai até seu carro e na hora de retirar o dinheiro do estacionamento nota que sua carteira se perdeu. “Era uma pena”. Mas tamanha era sua popularidade e nobreza que ninguém desconfia quando você se desculpa por não estar com dinheiro, então você vai embora prometendo que amanha pagará o que deve como sua índole lhe obrigava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fulano(a) vasculha a casa e encontra uma criança, dormindo uma cesta, como um anjo. Ele senta na cama observando a pequena beldade enquanto pega um dos travesseiros ortopédicos na mão. “É tão macio”, ele pensa. A criança vai acordando levemente enquanto sentia algo estranho cobrir seu rosto, porém, antes que seus gritos pudessem ecoar estridentes o travesseiro, já à cobria totalmente. Esperneava, gestos curtos e fracos pediam por ajuda enquanto Fulano(a) se excitava com sua soberania.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você chega em casa, mas não consegue acreditar no que vê. Você grita, chora. Seus parentes foram massacrados por um animal imundo, como alguém poderia ter feito o que fez? Logo aquele sentimento se transforma, você sente nojo, uma náusea forte que lhe faz vomitar em seu tapete persa. Você não consegue nem olhar para eles, você não crê. Olha nos rostos deles varias vezes, volta, olha de novo, na esperança de que eles mudem, ou que você acorde. Depois, o que eu queria, o ódio. Uma vingança incontrolável que inflama sua alma fazendo-o sentir amaldiçoado, um sentimento que talvez seja muito tarde para perceber a importância. Mas o ódio passa, você é bom demais, perdoa, falha comigo. Você acredita que o mundo vai ser melhor se abandonar seus ressentimentos e viver feliz. Certo disso e cheio de certezas você vai até sua gaveta secreta, aquela que seu filho jamais devia tocar e nunca tocar, e pega a ferramenta que só você tem, que iria trazê-los de volta, sua lâmpada mágica. É seu ultimo desejo, e você pede, para que sua família volte à vida, e todos vivem felizes para sempre, como se tudo não tivesse passado de um pesadelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu? Bem, e eu com isso?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-437903171578810084?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/437903171578810084/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/e-eu-com-isso.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/437903171578810084'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/437903171578810084'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/e-eu-com-isso.html' title='E eu com isso?'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-434616842346647889</id><published>2009-05-16T07:58:00.000-07:00</published><updated>2009-05-16T08:23:51.889-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sandra de Almeida Silva'/><title type='text'>Náufrago</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;" class="subtitulo"&gt;Sandra de Almeida Silva&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;" class="subtitulo"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;" class="subtitulo"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;Depois daquele dia, Josias nunca mais foi o mesmo homem. Levantou da mesa e iniciou uma caminhada sem rumo. Comeu e bebeu o quanto pôde, dormiu em muitas camas, pediu emprestado e não pagou, passou a jogar. E a perder. Perdeu tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, subiu num ônibus e foi bater na porta da única pessoa que poderia ajudá-lo: uma tia de meia-idade, irmã de sua falecida mãe. A mulher era boa conselheira, sabia tecer redes com palavras de consolo capazes de alçar qualquer um do fundo do poço. Era assim que ele se sentia, nas profundezas de um sumidouro, sem achar chão sob os pés. Bateu na porta, esperou, bateu de novo, e nada. Desesperou-se. Ela não estava em casa, quem sabe nem morasse mais ali, talvez tivesse morrido. A imagem da tia morta preencheu de cinza o dedal de esperança que Josias ainda conservava. Tanto tempo sem procurá-la, nem dar notícia, e agora ela, sem saber, dava-lhe o troco. Voltou para casa, o suor frio nas mãos, um torpor no corpo todo. Sua última saída tinha se fechado, não precisaria erguer um punho contra si, era só fechar os olhos e esperar. Alguém bate na porta. Josias achou inoportuno o som enérgico das batidas, um desrespeito à sua falta de vontade de viver. Trocou passos até o outro extremo do corredor escuro, agarrou-se ao trinco e abriu uma fresta. Uma nesga de sol forte entrou e iluminou o lado esquerdo do rosto do homem, exposto naquele vão timidamente concedido, cegando por um instante a visão do olho entreaberto. O carteiro entregou-lhe rapidamente um envelope grande e se foi, sem dizer palavra. Josias nem olhou para a correspondência que segurava na mão de cera: largou-a esquecida em cima da mesa, sobre a pilha de jornais velhos, espalhados e nunca lidos. O papel pardo do envelope era como uma tábua boiando no mar escuro, depois de um naufrágio, a espera de algum sobrevivente. Mas Josias já não podia perceber nada, atirou-se para sempre na poltrona velha, no canto da sala, encolhido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma carta da sua tia Jurema.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-434616842346647889?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/434616842346647889/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/naufrago.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/434616842346647889'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/434616842346647889'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/naufrago.html' title='Náufrago'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3794184424367192736.post-1505555960066050799</id><published>2009-05-16T07:47:00.000-07:00</published><updated>2009-05-16T08:23:37.173-07:00</updated><title type='text'>Apresentação</title><content type='html'>A Oficina de Criação Literária Uniritter foi instituída em 2007 com o objetivo de fomentar a criação literária entre a comunidade em geral, e não apenas entre os alunos da Universidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ministrada por Marcelo Spalding, a oficina tem aulas multimídias, realizadas no laboratório de informática, onde os aspectos teóricos da criação são apresentados de forma dinâmica e interativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse blog foi elaborado a pedido dos alunos para publicar os melhores trabalhos produzidos na Oficina. Para muitos é a primeira experiência na aventura da publicação, mas de certo para vários deles não será a única, como comprova o talento dos textos aqui expostos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3794184424367192736-1505555960066050799?l=oficinauniritter.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/feeds/1505555960066050799/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/apresentacao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/1505555960066050799'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3794184424367192736/posts/default/1505555960066050799'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinauniritter.blogspot.com/2009/05/apresentacao.html' title='Apresentação'/><author><name>Marcelo Spalding</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02719307697001620469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
